Acerca da POCadernos POAssinaturaLocais de vendaLivrosOutros sites

 

 

      

 

109 - MARÇO / ABRIL 07

Primeira páginaSumárioContra-capa

Ponto de Vista

Dois campos

 

Apoiam as reformas de Sócrates os sectores abastados da bur­guesia, a camada superior das classes médias, os quadros, a nata da sociedade, e a sua clientela fiel. Enfurecem-se contra Só­crates os que têm que pagar com o sacrifício das suas condições de vida a factura das reformas: a massa inferior dos assalariados, dos desempregados, dos reformados. A maioria, essa, por enquanto descontente mas indecisa, acabará por ser chamada a pronunciar-se se a luta entrar em ascenso. (...)

Para mudar de vida começar por correr com o Sócrates

 

A grande manifestação nacional da CGTP no dia 2 de Março confirmou que os trabalhadores começam a estar fartos das mentiras e dos roubos deste governo. O ano no­vo abriu com aumentos dos transportes públicos, electri­cidade, água, pão, gasolina, rendas de casa, medicamentos, portagens, taxas moderadoras, agravamento do IRS e das taxas de juro. Cresce incessantemente o desemprego, conge­lam-se os salários, baixa o valor das pensões, enquanto os lucros batem todos os recordes e a farra dos ricos não pára. (...)

O regime cobre-se de merda

Francisco Rodrigues

 

Estão na moda os simulacros de elei­ções – “elei­ções”, livres, democráticas, par­ticipadas, disputadas… só que em tor­no de coisa nenhuma. É uma forma de os comissários do regime nos compen­sarem da baixeza m­afiosa em que se afun­­da a vida política. Desta vez, a grande opção oferecida pela RTP aos portugue­ses foi elegerem, livre e democra­tica­mente, “o maior por­tuguês de sempre”. E depois de semanas de acesos de­bates e com a expectativa levada ao rubro, lá saiu na lotaria o Salazar! (...)

Moradores de Chelas exigem o que é seu

Entrevista por António Barata

 

Nas semanas que se seguiram ao 25 de Abril milhares de famílias ocuparam as casas da Zona I de Chelas, construídas pela ditadura para albergar os seus serventuários – pides, gnr’s, etc. Seguiu-se o processo de legalização das ocupações, tendo os moradores acordado com o Estado um regime de renda fixa, que previa que ao fim de algumas décadas estes entrassem na posse das suas habitações.
Em 2004, sem qualquer consulta aos moradores, o Estado altera unilateralmente as regras em favor da Fundação D. Pedro IV, instituição dita de solidariedade social mas de contornos mafiosos – ao ponto de alguns pareceres judiciais aconselharem a sua dissolução –, com poderosas protecções nos partidos da alternância democrática. Foi através dos jornais e de notas intimidatórias que os moradores ficaram a saber que o anteriormente acordado não vale nada, que não vão entrar na posse das casas e que as rendas vão ser agravadas, nalguns casos em 2500%.
Fomos ouvir a Comissão de Moradores do bairro das Amendoeiras. (...)

Desempregados

Afinal são mais de 600.000

 

Os números do INE so­bre o desemprego no 4º tri­mestre de 2006 deram mais uma machadada nas mentiras de Sócrates. O número oficial de desempregados atingiu, no fim do ano, 458.600 (8,2% da população activa). Na realida­de, como observa o economista Eugénio Rosa, da CGTP, o número é bem maior. Se so­marmos os 85.200 “inactivos disponíveis” (desempregados que não procuraram trabalho nas últimas 3 semanas) e os 68.500 em “subemprego visí­vel” (os que trabalham menos de 15 horas por semana, em­bora desejem trabalhar mais horas), chegamos ao total de 612.300, o que corresponde a cerca de 11% de desempre­gados. (...)

Morrer a trabalhar

Vladimiro Guinot

 

Portugal, em matéria de insegurança no trabalho, é líder na União Europeia, com uma média anual de duzentos e qua­renta e oito mil acidentes de trabalho. No ano passado esta insegurança “ren­deu” 157 mortos e, neste ano, em apenas dois meses e meio, já perderam a vida 24 trabalhadores. A maioria dos aciden­tes verifica-se nas empresas onde o tra­ba­lho precário prevalece e, em matéria de mortes, estas têm maior incidência na classe – adivinhe? – operária. A cons­trução civil e a indústria transformadora (estaleiros e fábricas) guardam para si a res­ponsabilidade do maior quinhão (70%) de mortos: 110 operário(a)s em 2006. (...)

Sócrates, agora também superpolícia

 

Quando do recente debate no Parlamento sobre a reorganização das polícias, a imprensa falou muito da “polícia de proximidade”, da Polícia de Trânsito e da Guar­da Fiscal, mas deixou passar sem grandes reparos o facto extraordinário de o primeiro-ministro passar a con­trolar directamente o SIRP, Serviço de Informações da República (que por sua vez controla o SIS e o SIED, as secretas civil e militar), o SISI, Sistema Integrado de Segurança Interna, e o Conselho Superior de Inves­tigação Criminal, a criar – concentração de poderes que até agora ninguém julgara possível. (...)

Bush na América Latina

A ronda do etanol

ALAI

 

A visita latino-americana de George W. Bush visa claramente alterar a correla­ção de forças no hemisfério. O seu pon­to crucial foi a assinatura com Lula da Silva de um vasto plano para a expansão da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar.
Houve naturalmente outras questões na agenda do presidente dos EUA. No Uruguai, confirmou a aproximação co­mercial em que ambos os governos vêm tra­balhando há mais de um ano. Na Co­lômbia, deu apoio ao governo de Álvaro Uribe, mergulhado numa séria crise de­vido ao seu envolvimento com os para­militares, e estudou formas de enfrentar o novo governo do Equador depois de Ra­fael Correa ter anunciado que não renovará o acordo para a utilização da base militar de Manta, estratégica para o prosseguimento do Plano Colômbia. Na Gua­temala é a previsível eleição da pré­mio Nobel Rigoberta Menchú nas pre­si­denciais de Setembro que preocupa Wa­shin­gton. Por último, no México Bush irá ajudar Felipe Calderón a enfren­tar a contestação popular que não afrouxa. (...)

Irão: a guerra que se prepara

Francisco Rodrigues

 

A concordância da administração Bush em sentar-se à mesa das negocia­ções com delegações do Irão e da Síria para discutir a “estabilização” do Iraque foi apresentada por certa imprensa co­mo um sinal de apaziguamento na cha­mada “crise iraniana”. Multiplicam-se con­tudo sinais iniludíveis de que esta “con­cessão” se destinou apenas a cobrir a escalada em curso: depois da detenção pelo exército norte-americano de uma de­legação iraniana em visita oficial ao Ira­que, em Fevereiro, os EUA forçaram a aprovação pelo Conselho de Segurança da ONU de novas sanções contra o Irão; concentram no Golfo uma enorme for­ça naval; na Austrália, o vice-presidente Dick Cheney repete que, quanto ao Irão, “o governo considera todas as opções”; a CIA prossegue com operações clan­destinas para desestabilizar o governo do Irão; e em fins de Março uma lancha de guerra inglesa entrou em águas terri-to­riais iranianas, numa provocação que só não teve maiores consequências devi-do à hábil reacção de Teerão. (...)

Palestina

A guerra dos 60 anos

 

1948 é para os palestinianos o ano da grande ca­tás­trofe: 750 aldeias destruídas e três quartos da população expulsos pelos colonos sionistas. Começou então uma das mais duras e prolongadas lutas de um povo pelo direito à existência. Em 1967, é a vez de a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Leste serem ocupadas.
Em 1993, longos anos de resistência contra o colonialismo e a política de apartheid são defraudados quando a OLP assina os acordos de Oslo, que atribuem aos palestinianos apenas 22 por cento do território – mas que, mesmo assim, nunca serão apli­­cados. Estes acordos eram para Israel e o seu men­tor norte-americano apenas um passo na realização do projecto de dispersão e aniquilamento do povo pales­­tiniano. (...)

Greve em São Petersburgo

 

Em 14 de Fevereiro, a equipa de tra­balho nocturno na fábrica Ford nos arre­dores de São Petersburgo, Rússia, entrou em greve. No dia seguinte, outros turnos aderiram – no total, 1900 operários em greve, 80 por cento dos efectivos. Reivin­dicam aumentos salariais, férias pagas, con­tratos colectivos, medidas de defesa contra os acidentes de trabalho. Esta é a ter­ceira greve nesta fábrica desde há um ano – o que não é dizer pouco, visto que a greve foi declarada ilegal pelo tri­bu­nal. O código do trabalho russo colo­ca tais condições ao direito de greve que uma greve legal é caso raro. (...)

O que empurra os Estados Unidos para a guerra?

Manuel Raposo

 

É comum atribuir-se a política belicista dos Estados Uni­dos a “desvario” da administração Bush e a “radicalis­mo” dos chamados neoconservadores. E, nesta linha, su­põe-se que uma derrota dos republicanos em 2008 impli­cará uma mudança de política e um regresso “à diplomacia”. Con­trariamente a esta ideia, nem os factos mais recentes, sub­sequentes à vitória dos democratas nas eleições para o Con­gresso, nem o conhecimento dos interesses de fundo das classes dirigentes norte-americanas, fazem acreditar na­quela possibilidade de mudança pacífica. (...)

Greve das conserveiras de Setúbal

Ana Barradas

 

Há 96 anos, as mulheres das fábricas de Setúbal, com sa­­lários que oscilavam entre os 350 e os 400 reis, exigiam au­­mentos de 50 reis por hora. O advento das máquinas de sol­dar e a crise da indústria conserveira ameaçavam pôr no desemprego milhares de operários. Declarada a greve a 21 de Fevereiro de 1911 – tinha a República cinco meses –, de­pressa se revelou a intransigência dos patrões. Sucederam--se os incidentes violentos, ao ponto de o administrador do concelho encerrar duas associações operárias e banir da cidade dois sindicalistas. No dia 25 de Fevereiro, o opera­ria­do de Setúbal declarou a greve geral. Foram enviados para a cidade vários contingentes militares e a canhoneira Zaire. Os trabalhadores, intimidados, regressaram ao traba­lho no dia 28, mas não as mulheres: recusavam retomar o tra­balho enquanto não lhes dessem os aumentos de salário. (...)

As relações entre a vanguarda e as massas

José Mário Branco

 

A Revolução proletária só poderá acontecer e sobreviver se e quando uma grande massa de trabalhadores po­bres, de várias camadas aliadas para esse fim, assumir como seu esse projecto de transformação da sociedade. O papel da van­guarda na libertação das consciências proletárias e na produ­ção de ideias políticas, como o fermento que faz levedar o pão, levanta a questão da relação dialéctica entre a vanguarda e as massas. Como resolver a contradição entre os dois pólos: uma organização de massas, por um lado, um exército de quadros experimentados e politicamente avan­çados, por outro? Para o compreendermos, temos de responder à per­gunta: quem é o protagonista da Histó­ria, em particular “des­ta nossa história”? Proponho algumas pistas para a re­flexão. (...)

Vanguarda e massas – pequenos exemplos

Vladimiro Guinot

 

No ano passado, em Setembro, cerca de noventa traba­lhadores da empresa de construção civil Pereira da Costa, na Venda Nova, Amadora, foram despedidos só porque o pa­trão assim o decidiu. Por essa altura, todos os trabalhado­res, de maioria operária, decidiram “assentar arraiais” em fren­te da empresa exigindo a reintegração dos seus camara­das. Esta situação manteve-se até que, em Novem­bro, o pa­trão trancou as portas da empresa, foi-se embora e man­dou para o desemprego 140 trabalhadores sem o pa­gamento dos salários em atraso. O montante da dívida do patrão aos trabalhadores ascende a três milhões de euros. (...)

 

topo

Para assuntos relacionados com a construção da página contacte: site@politicaoperaria.net