Caderno n.º 9
LENINE SOBRE A REVOLUÇÃO DE 1905


Índice

Relatório sobre a revolução de 1905
A revolução na Rússia
Revolução do tipo de 1789 ou do tipo de 1848?
A revolução educa
Revolução e contra-revolução



RELATÓRIO SOBRE A REVOLUÇÃO DE 1905


Jovens amigos e camaradas,

Comemoramos hoje o décimo segundo aniversário do “Domingo sangrento”, considerado com toda a justeza como o início da revolução russa.
Milhares de operários, não social-democratas, mas crentes, súbditos fiéis do czar, conduzidos pelo padre Gapone, encaminharam-se de todos os pontos da cidade para o centro da capital, em direcção à praça do Palácio de Inverno, para entregar uma petição ao czar. Os operários caminham com ícones, e Gapone, o seu chefe na ocasião, tinha escrito ao czar dando-se como garante da sua segurança pessoal e pedindo-lhe que se apresentasse perante o povo.
A tropa foi alertada. Ulanos e cossacos carregam sobre a multidão com armas brancas; disparam contra os operários desarmados que ajoelhados suplicam aos cossacos que lhes permitam aproximar-se do czar. Segundo os relatórios da polícia, houve nesse dia mais de um milhar de mortos e mais de dois mil feridos. A indignação dos operários foi indescritível.
É este, em grandes linhas, o quadro do dia 22 de Janeiro de 1905, o “Domingo sangrento”.
A fim de melhor realçar o alcance histórico deste acontecimento, citarei algumas passagens da petição dos operários. Começa com estas palavras:

“Nós, operários, habitantes de Petersburgo, dirigimo-nos a Ti. Somos escravos miseráveis, humilhados; somos subjugados pelo despotismo e o arbítrio. Com a paciência esgotada, cessámos o trabalho e pedimos aos nossos patrões que nos dessem pelo menos aquilo sem o qual a vida não passa de uma tortura. Mas isso foi-nos recusado; dizem os industriais que não está conforme com a lei. Somos milhares e, tal como todo o povo russo, estamos privados de todos os direitos humanos. Os Teus funcionários reduziram-nos à escravatura.”

A petição enumera as seguintes reivindicações: amnistia, liberdades cívicas, salário normal, entrega progressiva da terra ao povo, convocação de uma Assembleia Constituinte eleita por sufrágio universal e igual. Termina com estas palavras: “Senhor! Não recuses ajudar o Teu povo! Derruba a muralha que Te separa do Teu povo! Ordena que seja dada satisfação aos nossos pedidos, ordena-o publicamente e tornarás a Rússia feliz; se não, estamos prontos a morrer aqui mesmo. Só temos dois caminhos : a liberdade e a felicidade ou o túmulo.”
Causa uma impressão estranha ler hoje esta petição de operários incultos e iletrados, conduzidos por um padre patriarcal. Não podemos deixar de traçar um paralelo entre esta petição ingénua e as actuais resoluções de paz dos social-pacifistas; isto é, de pessoas que querem ser socialistas, mas que não passam de tagarelas burgueses. Os operários pouco conscientes da Rússia de antes da revolução não sabiam que o czar era o chefe da classe dominante, mais precisamente a dos grandes proprietários fundiários, já associados à grande burguesia por milhares de laços e prontos a defenderem pela violência, por todos os meios, o seu monopólio, os seus privilégios e os seus lucros. Nos nossos dias, os social-pacifistas que pretendem passar por gente “altamente cultivada” – sem ironia! – ignoram que é tão tonto esperar uma paz “democrática” dos governos burgueses que levam a cabo uma guerra imperialista de rapina, como o seria acreditar que petições pacíficas pudessem incitar o czar sangrento a conceder reformas democráticas.
No entanto, existe entre eles uma grande diferença: é que os social-pacifistas de hoje são em larga medida hipócritas que procuram, por via de sugestões discretas, desviar o povo da luta revolucionária ; enquanto os operários incultos da Rússia de antes da revolução provaram pelos seus actos a rectidão de gente despertada pela primeira vez para a consciência política.
E é precisamente neste despertar de imensas massas populares para a consciência política e para a luta revolucionária que reside o alcance histórico do 22 de Janeiro de 1905.
“Na Rússia ainda não existe povo revolucionário”, escrevia, dois dias antes do “Domingo sangrento”, Piotr Struvé que era então o líder dos liberais russos e que publicava um órgão ilegal, livre, editado no estrangeiro. Tão absurda parecia a este chefe dos reformistas burgueses “altamente cultivado”, presunçoso e arqui-estúpido, a ideia de um país de camponeses iletrados poder gerar um povo revolucionário! Tão profundamente convictos estavam os reformistas de então – tal como os dos nossos dias – da impossibilidade de uma verdadeira revolução!
Antes do 22 de Janeiro (9 de Janeiro do antigo calendário) de 1905, o partido revolucionário da Rússia agrupava um punhado de gente; os reformistas de então (tal como os dos nossos dias) apelidavam-nos por desdém uma “seita”. Algumas centenas de organizadores revolucionários, alguns milhares de membros de organizações locais, uma meia dúzia de folhas revolucionárias distribuídas no máximo uma vez por mês, publicadas as mais das vezes no estrangeiros e introduzidas clandestinamente na Rússia ao preço de dificuldades incríveis e de grandes sacrifícios – eis o que eram, na véspera do 22 de Janeiro de 1905, os partidos revolucionários da Rússia, e acima de tudo a social-democracia revolucionária,. Aparentemente, isto dava aos reformistas tacanhos e pretensiosos o direito de afirmar que não existia ainda povo revolucionário na Rússia.
Mas, em poucos meses, as coisas mudaram completamente. As centenas de social-democratas revolucionários passaram “subitamente” a milhares, e estes milhares tornaram-se chefes de dois a três milhões de proletários. A luta proletária suscitou uma grande efervescência, até mesmo em parte um movimento revolucionário, no fundo da massa de cinquenta a cem milhões de camponeses; o movimento camponês teve repercussão no exército e deu origem a revoltas militares, a choques armados entre as tropas. Assim um imenso país com 130 milhões de habitantes entrou na revolução; assim a Rússia adormecida se tornou a Rússia do proletariado revolucionário e do povo revolucionário.
É necessário estudar esta transformação, compreender o que a tornou possível, analisar, digamos, as suas modalidades e as suas vias.
A greve de massa foi o seu agente mais poderoso. A originalidade da revolução russa está em que foi democrático-burguesa pelo seu conteúdo social, mas proletária pelos seus meios de luta. Foi uma revolução democrática burguesa porque o fim a que aspirava no imediato e que podia alcançar no imediato, pelas suas próprias forças, era a república democrática, a jornada de oito horas, a confiscação das imensas propriedades fundiárias da alta nobreza, tudo medidas realizadas quase inteiramente pela revolução burguesa em França em 1792 e 1793.
Mas a revolução russa foi em simultâneo uma revolução proletária, não só porque o proletariado era então a força dirigente, a vanguarda do movimento, mas também porque o instrumento de luta específico do proletariado, a greve, constituiu a alavanca principal para pôr em movimento as massas e o facto mais característico da vaga crescente dos acontecimentos decisivos.
Na história mundial, a revolução russa é a primeira – mas decerto não a última – grande revolução onde a greve política de massas desempenhou um papel extremamente importante. Podemos mesmo afirmar que as peripécias de revolução russa e a sucessão das suas formas políticas só se compreendem se se estudar a sua base, segundo a estatística das greves.
Conheço bem a que ponto a aridez das estatísticas se presta pouco a uma conferência, a que ponto pode desencorajar os assistentes. Mas não posso deixar de citar alguns números redondos, que vos permitam uma apreciação sobre a verdadeira base objectiva de todo o movimento. O número médio anual de grevistas na Rússia, durante os dez anos que precederam a revolução, foi de 43 000. Houve portanto no total 430 000 grevistas durante os dez anos que antecederam a revolução. Em Janeiro de 1905, primeiro mês da revolução, contaram-se 440 000 grevistas. Ou seja, em apenas um mês, mais do que durante os dez anos anteriores!
Nenhum país capitalista do mundo, mesmo entre os mais avançados, como a Inglaterra, os Estados Unidos da América ou a Alemanha, conheceu um movimento grevista tão amplo como o da Rússia em 1905. O número total de grevistas foi de 2 800 000, ou seja, o dobro do número total dos operários industriais! Isto não prova evidentemente que, nas cidades da Rússia, os operários industriais fossem mais cultos, mais fortes ou mais aptos para a luta que os seus irmãos da Europa Ocidental. O contrário é que é verdadeiro.
Mas isto mostra a grandeza que pode ter a energia adormecida no seio do proletariado. Indica que numa época revolucionária – e afirmo-o sem o mínimo exagero, de acordo com os dados mais precisos fornecidos pela história da Rússia – o proletariado pode desenvolver uma energia combativa cem vezes mais intensa que o normal, em períodos de acalmia. Daqui sobressai que, até 1905, a humanidade não sabia ainda a força enorme e grandiosa que o proletariado pode desenvolver, e desenvolverá, quando se trata de lutar por um objectivo verdadeiramente sublime, de uma forma verdadeiramente revolucionária!
A história da revolução russa indica-nos que foi precisamente a vanguarda, a elite dos operários assalariados, que combateu com mais tenacidade e abnegação. Quanto maiores as fábricas, tanto mais obstinadas eram as greves, mais vezes se repetiam no decurso de um mesmo ano. Quanto mais importante a cidade, mais considerável era o papel do proletariado na luta. As três grandes cidades onde os operários eram mais conscientes e mais numerosos, Petersburgo, Riga e Varsóvia, fornecem, em relação à totalidade dos operários, um número incomparavelmente mais elevado de grevistas que todas as outras cidades, para não referir os campos.
Os operários metalúrgicos representam na Rússia – provavelmente como nos outros países capitalistas – a vanguarda do proletariado. E aí observamos o seguinte facto instrutivo: em 1905, para 100 operários industriais, houve no conjunto da Rússia 160 grevistas. Mas, nesse mesmo ano, cada centena de metalúrgicos forneceu 320 grevistas! Calcula-se que, em 1905, cada operário industrial russo perdeu devido às greves uma média de 10 rublos – cerca de 26 francos à cotação de antes da guerra – o que de alguma maneira representa o seu contributo para a luta. Se tomarmos só os metalúrgicos, a soma é três vezes superior! Os melhores elementos da classe operária marchavam à cabeça, arrastando os indecisos, despertando os adormecidos e galvanizando os fracos.
O entrelaçamento das greves económicas com as greves políticas desempenhou um papel extremamente original durante a revolução. Não há dúvidas de que apenas a mais estreita ligação entre estas duas formas de greve poderia garantir uma grande força ao movimento. A massa dos explorados nunca poderia ter sido arrastada para o movimento revolucionário se não tivesse sob os olhos exemplos diários a mostrar-lhe como os operários assalariados de diversos ramos da indústria obrigavam os capitalistas a melhorar, imediatamente, na hora, a sua situação. Graças a esta luta, um espírito novo soprou por toda a massa do povo russo. Foi só então que a Rússia da servidão, tolhida no seu torpor, a Rússia patriarcal, pia e submissa, despiu a pele do homem velho, foi só então que o povo russo recebeu uma educação verdadeiramente democrática, verdadeiramente revolucionária.
Quando esses senhores da burguesia e os seus lisonjeadores obtusos, os reformistas socialistas, falam com tanta suficiência da “educação” das massas, entendem vulgarmente com isso qualquer coisa de primário, de pedante, que desmoraliza as massas e lhes inculca preconceitos burgueses.
A verdadeira educação das massas não pode nunca ser separada de uma luta política independente, e sobretudo da luta revolucionária das próprias massas. Só a acção educa a classe explorada, só ela lhe dá a medida das suas forças, alarga o seu horizonte, aumenta as suas capacidades, esclarece a sua inteligência e tempera a sua vontade. É por isso que os próprios reaccionários tiveram de reconhecer que o ano de 1905, esse ano de combate, esse “ano louco”, enterrou definitivamente a Rússia patriarcal.
Examinemos mais de perto a relação entre os operários metalúrgicos e os operários têxteis na Rússia durante as greves de 1905. Os primeiros são os proletários mais bem remunerados, os mais conscientes e os mais cultos. Os segundos, cerca de três vezes mais numerosos na Rússia de 1905, constituem a massa mais atrasada, a mais mal paga, e que, com frequência, não cortou ainda definitivamente todos os seus laços com o campo. E aí constatamos este facto muito importante:
Entre os metalúrgicos, as greves políticas suplantam as greves económicas durante todo o ano de 1905, ainda que no início este predomínio tenha sido muito menos marcado do que no fim do ano. Em contrapartida, entre os operários têxteis, observa-se no início de 1905 a preponderância considerável das greves económicas, e é apenas no fim do ano que as greves políticas acabam por prevalecer. Daqui decorre com toda a clareza que só a luta económica, só a luta pela melhoria imediata e directa da sua sorte pode sacudir as camadas mais atrasadas da massa explorada, educá-las verdadeiramente e, numa época revolucionária, torná-las em alguns meses num exército de combatentes políticos.
Decerto era indispensável para esse efeito que a vanguarda da classe operária não entendesse por luta de classes a luta pelos interesses de uma estreita camada superior, como os reformistas se esforçaram muitas vezes por inculcar nos operários, mas que o proletariado interviesse efectivamente enquanto vanguarda da maioria dos explorados e os trouxesse para o combate, como foi o caso na Rússia em 1905 e como será sem qualquer dúvida no decurso da próxima revolução proletária na Europa.
O início do ano de 1905 trouxe a primeira grande vaga de greves por todo o país. Desde a Primavera, assistimos na Rússia ao despertar do primeiro movimento camponês de vasta envergadura, movimento não apenas económico, mas também político. Para compreender toda a importância desta viragem marcante, é indispensável recordar que o campesinato russo só foi libertado da servidão, a mais dura que se imagina, em 1861, que os camponeses são na sua maioria iletrados e vivem numa miséria indescritível, oprimidos pelos grandes proprietários fundiários, embrutecidos pelos padres, isolados por distâncias consideráveis e pela quase completa falta de estradas.
A Rússia conheceu pela primeira vez um movimento revolucionário contra o czarismo em 1825, e esse movimento foi obra quase exclusiva da nobreza. Desde então e até 1881, ano em que Alexandre II foi abatido por terroristas, os intelectuais da classe média estiveram à cabeça do movimento. Deram provas do maior espírito de sacrifício e o seu heróico modo de luta terrorista espantou o mundo inteiro. Decerto não caíram em vão e o seu sacrifício contribuiu, directamente ou não, para a educação revolucionária posterior do povo russo. Mas não atingiram de modo nenhum, nem podiam atingir, o seu objectivo imediato: o despertar de uma revolução popular.
Só a luta revolucionária do proletariado o conseguiu. Só as greves de massas desencadeadas por todo o país, conjugadas com as cruéis lições da guerra imperialista russo-japonesa, arrancaram as massas camponesas à sua letargia. A palavra “grevista” adquiriu para os camponeses um significado completamente novo: designava uma espécie de rebelde, de revolucionário, aquilo que outrora se exprimia pela palavra “estudante”. Mas, na medida em que o “estudante” pertencia à classe média, aos “letrados”, aos “senhores”, era estranho ao povo. Pelo contrário, o “grevista” provinha do povo, contava-se entre os explorados; expulso de Petersburgo, voltava frequentemente à aldeia onde falava aos seus companheiros do incêndio que estava a deflagrar na cidade e que devia destruir tanto os capitalistas como os nobres. Um novo tipo de homem surgiu nos campos russos: o jovem camponês consciente. Estava em contacto com os “grevistas”, lia jornais, contava aos camponeses o que se passava nas cidades, explicava aos companheiros da aldeia o alcance das reivindicações políticas, chamava-os para a luta contra a grande aristocracia fundiária, contra os padres e os funcionários.
Os camponeses juntavam-se em grupos para examinar a sua situação e envolviam-se pouco a pouco na luta: atacavam em multidão os grandes proprietários fundiários, incendiavam os seus palácios e domínios ou apoderavam-se das suas reservas, do trigo e outros víveres, matavam os polícias, exigiam que as terras imensas pertencentes aos nobres fossem entregues ao povo.
Na Primavera de 1905, o movimento camponês era apenas embrionário: estendia-se aproximadamente a um sétimo dos distritos, ou seja uma minoria. Mas a combinação da greve proletária de massas nas cidades com o movimento camponês foi suficiente para abalar o mais “firme” e o último apoio do czarismo. Refiro-me ao exército.
Estalam revoltas militares na marinha e no exército. Cada nova vaga de greves e de movimentos camponeses no curso da revolução é acompanhada de revoltas militares em toda a Rússia. A mais célebre destas revoltas é a do couraçado Príncipe Potemkine da frota do Mar Negro, que, caído nas mãos dos insurrectos, tomou parte na revolução em Odessa e, após a derrota da revolução e de tentativas infrutíferas de tomar outros portos (por exemplo Feodósia na Crimeia), se rendeu às autoridades romenas em Constanza.
Permitam-me que vos conte em pormenor um pequeno episódio desta rebelião da frota do Mar Negro para vos dar um quadro concreto dos acontecimentos no seu ponto culminante:

“Organizávamos reuniões de operários e de marinheiros revolucionários; tornaram-se cada vez mais frequentes. Como era proibido aos militares assistirem às reuniões dos operários, estes começaram a comparecer em massa nas dos militares. Juntavam-se aos milhares. A ideia de uma acção comum encontrou um enorme eco. As companhias mais conscientes elegeram delegados.
As autoridades militares decidiram então tomar medidas. Alguns oficiais tentaram pronunciar discursos “patrióticos” nas reuniões, mas os resultados foram desastrosos: experientes na discussão, os marinheiros obrigaram os seus superiores a uma fuga vergonhosa. Perante estes fracassos, decidiram uma interdição geral das reuniões. Na manhã de 24 de Novembro de 1905, uma companhia em estado de alerta foi colocada à porta da caserna. O contra-almirante Pissarevski ordenou publicamente: “Não deixar sair ninguém da caserna! Atirar em caso de desobediência!” O marinheiro Petrov saiu das fileiras da companhia que recebera esta ordem, carregou ostensivamente a sua espingarda, abateu com um tiro o segundo capitão Stein, do regimento de Bielostok, e com um segundo tiro feriu o contra-almirante Pissarevski. Um oficial ordenou: “Prendam-no!” Ninguém se mexeu. Petrov atirou a espingarda para o chão e gritou: “De que estão à espera? Prendam-me!” Foi preso. Vindos de todos os lados, os marinheiros exigiram imperativamente a sua liberdade e declararam constituir-se como caução do colega. A excitação estava no seu cúmulo.
– Petrov, perguntou um oficial, procurando uma saída para a situação, o teu tiro foi disparado por acaso, não foi?
– Como, por acaso! Saí da fileira, carreguei a arma e apontei, foi por acaso?
– Eles reclamam a tua liberdade...
E Petrov foi posto em liberdade. Mas os marinheiros não se ficaram por aí. Todos os oficiais de serviço foram presos, desarmados e conduzidos para os gabinetes... Os delegados dos marinheiros, cerca de quarenta, deliberaram toda a noite. Decidiram libertar os oficiais, mas proibiram-lhes a partir de então o acesso à caserna... “

Esta pequena cena ilustra da melhor maneira os acontecimentos tal qual se desenrolaram na maior parte das revoltas militares. A efervescência revolucionária do povo não podia deixar de ganhar também o exército. Facto característico: os elementos da marinha de guerra e do exército, recrutados sobretudo entre os operários da indústria e a quem era exigida uma sólida formação técnica, como os sapadores por exemplo, forneceram chefes ao movimento. Mas as grandes massas eram ainda demasiado ingénuas, demasiado pacíficas, demasiado plácidas, demasiado cristãs. Inflamavam-se facilmente; uma qualquer injustiça, a grosseria demasiado flagrante dos oficiais, uma má refeição, etc., podiam provocar uma revolta. Mas faltavam-lhes a perseverança e a clara consciência das tarefas: ainda não compreendiam que só a mais enérgica luta armada, só a vitória sobre todas as autoridades militares e civis, só o derrube do governo e a tomada do poder em todo o país, poderiam garantir o sucesso da revolução.
A grande massa dos marinheiros e dos soldados revoltava-se facilmente. Mas cometia também facilmente a cândida tolice de devolver à liberdade os oficiais presos; deixava-se acalmar por promessas e exortações das autoridades, que assim ganhavam um tempo precioso, recebiam reforços e esmagavam os motins, após o que o movimento era ferozmente reprimido e os seus chefes executados.
É particularmente interessante comparar os levantamentos militares da Rússia de 1905 e a insurreição militar dos dezembristas em 1825. Em 1825 o movimento político era quase exclusivamente dirigido por oficiais, mais precisamente por oficiais nobres, ganhos pelas ideias democráticas da Europa durante as guerras napoleónicas. A massa dos soldados, então ainda formada por servos, era passiva.
A história de 1905 oferece-nos um quadro inteiramente diferente. Os oficiais, com poucas excepções, professavam ideias liberais burguesas, reformistas, ou então abertamente contra-revolucionárias. Os operários e os camponeses fardados foram a alma das insurreições; o movimento tornou-se popular. Pela primeira vez na história da Rússia, abraçava a maioria dos explorados. O que lhe faltou foi, por um lado, a firmeza, a resolução das massas, demasiado sujeitas ao mal da confiança, e, por outro, uma organização dos operários social-democratas revolucionários fardados: estes não estavam em condições de assumir a direcção do movimento, de se pôr à cabeça do exército revolucionário e desencadear a ofensiva contra as autoridades governamentais.
Refira-se, de passagem, que estas duas falhas serão eliminadas – talvez mais lentamente do que aquilo que desejamos, mas com certeza – não só pela evolução geral do capitalismo, mas também pela guerra em curso...
De qualquer forma, a história da revolução russa, tal como a da Comuna de Paris de 1871, traz-nos um ensinamento indiscutível: o militarismo nunca e em caso algum pode ser vencido e abolido senão pela luta vitoriosa de uma parte do exército nacional contra a outra. Não basta condenar, maldizer, “repudiar” o militarismo, criticá-lo e mostrar a sua nocividade; é estúpido recusar pacificamente o serviço militar; o que é necessário fazer é manter alerta a consciência revolucionária do proletariado e não apenas de uma forma geral, mas preparando concretamente os melhores elementos do proletariado para tomarem a cabeça do exército revolucionário no momento em que a efervescência no seio do povo tenha atingido o ponto culminante.
A experiência quotidiana de qualquer Estado capitalista traz-nos o mesmo ensinamento. Qualquer uma das “pequenas” crises que atravesse um desses Estados mostra-nos em miniatura os elementos e os embriões dos combates que inelutavelmente terão lugar em vasta escala numa grande crise: O que é, por exemplo, uma greve, senão uma pequena crise da sociedade capitalista? O ministro do Interior da Prússia, von Puttkamer, não tinha razão quando pronunciava a sua frase memorável: “Qualquer greve oculta a hidra da revolução”? O recurso à tropa quando das greves, em todos os países capitalistas, e até mesmo, se é possível usar este termo, nos mais pacíficos e nos mais “democráticos”, não nos ensina como se passarão as coisas em períodos de crise verdadeiramente graves?

Mas volto à história da revolução russa.
Tentei mostrar-vos de que maneira as greves agitaram todo o país e as camadas mais vastas, as mais atrasadas dos explorados, como se desencadeou o movimento camponês, como foi acompanhado de levantamentos militares.
O movimento atingiu o seu apogeu no curso do Outono de 1905. A 19 (6) de Agosto apareceu um manifesto do czar que anunciava a criação de uma assembleia representativa. A Duma, dita de Buliguine, devia ser fundada nos termos de uma lei eleitoral que só admitia um número irrisório de eleitores e atribuía a este “parlamento” original direitos unicamente deliberativos, consultivos, mas nenhum direito legislativo.
Os burgueses, os liberais, os oportunistas estavam prontos para agarrar com as duas mãos este “presente” do czar aterrado. Como todos os reformistas, os nossos reformistas de 1905 não podiam entender que existem situações históricas nas quais as reformas, e sobretudo as promessas de reformas, têm por único objectivo acalmar a efervescência do povo e obrigar a classe revolucionária a cessar ou pelo menos a enfraquecer a sua acção.
A social-democracia revolucionária da Rússia compreendeu muito bem o verdadeiro carácter desta outorga de uma Constituição fantasma em Agosto de 1905. E foi por isso que lançou, sem qualquer hesitação, as palavras de ordem: Abaixo a Duma consultiva! Boicote da Duma! Abaixo o governo czarista! Continuação da luta revolucionária para derrubar este governo! Não é o czar, mas um governo revolucionário provisório que deve convocar a primeira verdadeira assembleia representativa do povo na Rússia!
A história deu razão aos social-democratas revolucionários, porque a Duma de Buliguine não chegou a ser convocada. A tormenta revolucionária varreu-a antes mesmo da sua convocação e obrigou o czar a promulgar uma nova lei eleitoral aumentando sensivelmente o número de eleitores, e a reconhecer o carácter legislativo da Duma.
Em Outubro e Dezembro de 1905, a curva ascendente da revolução russa atingiu o seu ponto mais alto. Todas as fontes de energia revolucionária do povo jorraram mais impetuosamente que nunca. O número de grevistas, que se elevava em Janeiro de 1905, como referi, a 440 000, ultrapassou em Outubro de 1905 o meio milhão (num único mês, reparem!). Mas a este número, que só conta os operários industriais, deve juntar-se várias centenas de milhares de ferroviários, de empregados dos correios, etc.
A greve geral dos ferroviários parou o tráfego ferroviário em toda a Rússia e paralisou seriamente as forças do governo. As portas das universidades abriram-se e das salas de conferências, exclusivamente destinadas, em tempo de paz, à intoxicação dos jovens espíritos com a sabedoria professoral para fazer deles lacaios dóceis da burguesia e do czarismo, passaram a servir então de salas de reuniões para milhares e milhares de operários, de artesãos e empregados, que aí discutiam aberta e livremente questões políticas
A liberdade de imprensa foi conquistada com grande luta. A censura foi pura e simplesmente abolida. Já nenhum editor ousava submeter às autoridades o exemplar obrigatório previsto pela lei, e estas não ousavam reagir. Pela primeira vez na história da Rússia, jornais revolucionários foram publicados sem entraves em Petersburgo e noutras cidades. Só em Petersburgo eram editados três diários social-democratas com uma tiragem de 50 000 a 100 000 exemplares.
O proletariado estava à cabeça do movimento. Propunha-se arrancar a jornada de oito horas pela via revolucionária. Em Petersburgo, a palavra-de-ordem era então: “A jornada de oito horas e armas!” Tornou-se claro para um número sempre crescente de operários que a sorte da revolução não podia ser e não seria decidida senão através da luta armada.
Uma organização de massa com um carácter original foi formada no calor do combate: os célebres Sovietes de deputados operários, assembleias de delegados de todas as fábricas. Em várias cidades da Rússia, estes Sovietes de deputados operários assumiram cada vez mais o papel de um governo revolucionário provisório, o papel de órgãos e de guias dos levantamentos. Tentou-se criar Sovietes de deputados de soldados e de marinheiros, e associá-los aos Sovietes de deputados operários.
Algumas cidades da Rússia tornaram-se então minúsculas “repúblicas” locais onde a autoridade do governo foi varrida e onde os Sovietes de deputados operários funcionavam realmente como um novo poder de Estado. Infelizmente, estes períodos foram demasiado breves, as “vitórias” demasiado fracas e demasiado isoladas.
Durante o Outono de 1905 o movimento camponês tomou proporções ainda maiores. Mais de um terço dos distritos do país foram então teatro “de perturbações agrárias” e de verdadeiros levantamentos de camponeses que incendiaram cerca de 2000 propriedades e partilharam os bens arrancados ao povo pelos escroques da nobreza.
Infelizmente, esta acção foi muito superficial! Infelizmente, os camponeses só destruíram um quinze avos das propriedades, uma pequena fracção do que deveriam ter destruído para libertar definitivamente a terra russa dessa ignomínia que é a grande propriedade fundiária feudal. Infelizmente, os camponeses agiram numa ordem demasiado dispersa, não estavam suficientemente organizados nem eram suficientemente combativos, e foi esta uma das razões essenciais da derrota da revolução.
Um movimento de emancipação nacional sublevou os povos oprimidos da Rússia. Mais de metade, quase três quintos (exactamente 57 por cento) dos povos do país sofrem a opressão nacional, nem sequer têm o direito de falar livremente a sua língua materna, são russificados à força. Os muçulmanos, por exemplo, que são na Rússia dezenas de milhões, fundaram então com uma prontidão admirável uma liga muçulmana; em geral, foi uma época em que as mais diversas organizações se multiplicaram prodigiosamente.
Para dar particularmente aos jovens uma ideia da amplitude que tomou o movimento de emancipação nacional na Rússia de então, em ligação com o movimento operário, citarei este simples facto.
Em Dezembro de 1905, em centenas de escolas, os estudantes polacos queimaram todos os livros e quadros russos, tal como os retratos do czar; agrediram e expulsaram das escolas os professores russos e mesmo os seus colegas russos aos gritos de: “Vão-se embora, voltem para a Rússia!” Os alunos das escolas secundárias da Polónia enunciaram, entre outras, as seguintes reivindicações: “1) todas as escolas secundárias devem estar subordinadas ao Soviete dos deputados operários; 2) serão convocadas reuniões de estudantes e operários nas escolas; 3) os estudantes dos liceus estarão autorizados a vestir camisas vermelhas, para marcar a sua adesão à futura república proletária”, etc.

Quanto mais amplas se tornavam as ondas do movimento, mais energicamente a reacção se armou para combater a revolução. A revolução russa de 1905 confirmou o que Karl Kautsky escreveu em 1902 no seu livro A Revolução social (Kautsky, diga-se de passagem, era ainda então um marxista revolucionário e não, como hoje, um defensor dos sociais-patriotas e dos oportunistas). Dizia: “A próxima revolução… assemelhar-se-á menos a um levantamento espontâneo contra o governo e mais a uma guerra civil de longa duração.”
E foi mesmo o que aconteceu! E assim será certamente na próxima revolução na Europa!
O ódio do czarismo voltou-se sobretudo contra os judeus. Por um lado, estes forneceram uma percentagem particularmente elevada (em relação ao número total da população judaica) de dirigentes do movimento revolucionário. Repare-se, a propósito, que também hoje o número de internacionalistas entre os judeus é relativamente mais elevado do que entre os outros povos. Por outro lado, o czarismo sabia muito bem explorar os preconceitos mais infames das camadas mais incultas da população contra os judeus para organizar, se não mesmo para dirigir ele próprio, pogromes (contaram-se então em 100 cidades mais de 4000 mortos e mais de 10 000 mutilados), esses monstruosos massacres de judeus pacíficos, das suas mulheres e crianças, essas abominações que tornaram o czarismo tão odioso aos olhos do mundo civilizado. Estou a referir-me naturalmente aos membros verdadeiramente democráticos do mundo civilizado, que são exclusivamente os operários socialistas, os proletários.
Mesmo nos países mais livres, mesmo nas repúblicas da Europa Ocidental, a burguesia sabe muito bem associar as suas frases hipócritas contra as “atrocidades russas” às negociatas financeiras mais desavergonhadas, designadamente o apoio financeiro que concede ao czarismo e à exploração imperialista da Rússia pela exportação de capitais, etc.
A revolução de 1905 atingiu o seu ponto culminante aquando da insurreição de Dezembro em Moscovo. Um pequeno número de insurrectos, operários organizados e armados – não eram mais de oito mil – resistiu durante nove dias ao governo do czar. Este não se podia fiar na guarnição de Moscovo; pelo contrário, teve de mantê-la fechada, e foi só com a chegada do regimento Semionovski, chamado de Petersburgo, que pôde reprimir o levantamento.
A burguesia compraz-se em troçar da insurreição de Moscovo e em qualificá-la de artificial. Por exemplo, entre as publicações alemãs ditas “científicas”, existe uma obra volumosa sobre o desenvolvimento político da Rússia, escrita pelo professor Max Weber que qualificou a insurreição de Moscovo de “golpe”. “O grupo de Lenine – escreveu aquele “doutíssimo” professor – e uma parte dos socialistas-revolucionários tinham preparado desde há muito esse levantamento insensato.”
Para apreciar com o devido valor esta sabedoria professoral da burguesia cobarde, basta recordar sem comentários os números da estatística das greves. Em Janeiro de 1905, havia apenas 123 000 grevistas na Rússia lutando por reivindicações puramente políticas; em Outubro, contavam-se 330 000, e o máximo foi atingido em Dezembro, quando, no espaço de um mês, existiram 370 000 grevistas por motivos estritamente políticos!
Recordemos os progressos da revolução, os levantamentos dos camponeses e as revoltas militares e convencer-nos-emos de imediato de que o juízo sustentado pela “ciência” burguesa sobre a insurreição de Dezembro é não apenas inepto, mas é também um subterfugio por parte dos representantes da burguesia cobarde que encontra no proletariado o seu inimigo de classe mais perigoso.
Na realidade, todo o desenvolvimento da revolução russa conduzia inelutavelmente a uma luta armada, decisiva, entre o governo do czar e a vanguarda do proletariado consciente enquanto classe.
Já apontei, nas considerações anteriores, em que consistiu a fraqueza da revolução russa, a fraqueza que ocasionou a sua derrota temporária.
Depois de sufocada a insurreição de Dezembro, a revolução seguiu uma curva descendente. Mas este período compreende, também, fases com o maior interesse ; basta evocarmos as duas tentativas feitas pelos elementos mais combativos da classe operária para pôr fim ao recuo da revolução e preparar uma nova ofensiva.
Mas o tempo que me foi atribuído está quase esgotado e não quero abusar da paciência dos meus ouvintes. Penso que já apontei – na medida em que um tema tão vasto possa ser exposto com brevidade – o essencial para a compreensão da revolução russa: o seu carácter de classe e as suas forças motoras, os seus meios de combate.
Limito-me a acrescentar algumas observações sumárias sobre o alcance mundial da revolução russa.
Do ponto de vista geográfico, económico e histórico, a Rússia pertence não só à Europa, mas também à Ásia. Por isso vemos que a revolução russa conseguiu não apenas retirar definitivamente do seu torpor o maior e mais atrasado país da Europa e criar um povo revolucionário conduzido por um proletariado revolucionário. Isto não foi tudo. A revolução russa também agitou toda a Ásia. As revoluções da Turquia, da Pérsia e da China mostram que a insurreição grandiosa de 1905 deixou marcas profundas e que é inapagável a sua influência, manifestada no movimento ascendente de centenas e centenas de milhões de pessoas.
Indirectamente, a revolução russa também exerceu a sua influência nos países do Ocidente. Não podemos esquecer que a 30 de Outubro de 1905, desde a chegada a Viena do telegrama anunciando o manifesto constitucional do czar, a notícia teve um papel decisivo na vitória do sufrágio universal na Áustria.
No congresso da social-democracia austríaca, quando o camarada Ellenbogen – à data não era ainda um social-patriota, ainda era um camarada – apresentava o seu relatório sobre a greve política, colocaram aquele telegrama à sua frente. Os debates foram imediatamente interrompidos. “O nosso lugar é na rua !” exclamaram os delegados. E nos dias seguintes viram-se gigantescas manifestações de rua em Viena, barricadas em Praga. A vitória do sufrágio universal na Áustria estava definitivamente conquistada.
Encontramos frequentemente ocidentais que falam da revolução russa como se os acontecimentos, as relações e os meios de luta daquele país atrasado fossem muito pouco comparáveis com os da Europa Ocidental e não pudessem, portanto, ter qualquer alcance prático.
Nada de mais errado do que esta opinião.
Decerto, as formas e os objectivos das próximas lutas da revolução europeia do futuro serão diferentes sob vários aspectos das formas da revolução russa. Mas a revolução russa não deixa de ser – devido precisamente ao seu carácter proletário, com o sentido particular que já indiquei – o prelúdio da revolução europeia iminente. Não restam dúvidas que esta terá que ser uma revolução proletária, e num sentido ainda mais profundo da palavra: uma revolução proletária e também socialista no seu conteúdo. Esta revolução que se aproxima mostrará com ainda maior amplidão, por um lado, que só os combates aguerridos, nomeadamente, as guerras civis, podem libertar a humanidade do jugo do capital e, por outro, que só os proletários com uma consciência de classe desenvolvida podem intervir e intervirão na qualidade de chefes da imensa maioria de explorados.
O silêncio de morte que reina actualmente na Europa não pode iludir-nos. A Europa está prenhe de uma revolução. As atrocidades monstruosas da guerra imperialista, os tormentos da carestia da vida geram por todo o lado um estado de espírito revolucionário, e as classes dominantes, a burguesia assim como os seus lacaios, os governos, estão cada vez mais empurrados para um impasse, do qual não podem escapar sem muito graves perturbações.
Tal como em 1905 o povo da Rússia, conduzido pelo proletariado, se sublevou contra o governo do czar para conquistar uma república democrática, veremos nos próximos anos, na sequência desta guerra de pilhagem, os povos da Europa sublevarem-se, sob condução do proletariado, contra o poder do capital financeiro, contra os grandes bancos, contra os capitalistas; e esta desordem só poderá terminar com a expropriação da burguesia e a vitória do socialismo.
Nós, os mais velhos, não veremos talvez as lutas decisivas da revolução iminente. Mas creio poder transmitir com grande segurança a esperança de que os jovens, que militam tão admiravelmente no movimento socialista da Suíça e do mundo inteiro, terão a felicidade não só de combater na revolução proletária de amanhã, mas também de a levar ao triunfo.

(Relatório lido por Lenine em 22 de Janeiro de 1917, na Casa do Povo
de Zurique, perante uma reunião de jovens operários suíços.
Publicado pela primeira vez no Pravda, em 22 de Janeiro de 1925.
Lenine, Oeuvres, tomo 23, pp. 259-277.
Éditions du Progrès, Moscovo, 1974).



A REVOLUÇÃO NA RÚSSIA


Genebra, 10 (23) Janeiro

A classe operária, que há muito parecia manter-se afastada do movimento de oposição burguês, levantou a voz. As largas massas operárias alcançaram, num relâmpago, a sua vanguarda, os social-democratas conscientes. O movimento operário de Petersburgo avançou nestes últimos dias com verdadeiros passos de gigante. As reivindicações económicas dão lugar às reivindicações políticas. A greve torna-se geral, o que prefigura uma manifestação nunca vista; o prestígio do título imperial afunda-se para sempre. A insurreição estalou. A força responde à força. Combate-se nas ruas, levantam-se barricadas, os tiros crepitam, os canhões troam. Por todo o lado, rios de sangue; a guerra civil pela liberdade teve início. Moscovo, o Sul, o Cáucaso e a Polónia estão prontos para se juntarem ao proletariado de Petersburgo. A palavra-de-ordem dos operários passou a ser: a morte ou a liberdade!
Muitas coisas ficarão decididas hoje e amanhã. A situação evolui de hora a hora. O telégrafo traz notícias exaltantes e as palavras parecem incapazes de dar conta da intensidade dos acontecimentos vividos. Cada um deve estar pronto a cumprir o seu dever de revolucionário e de social-democrata.
Viva a revolução!
Viva o proletariado insurrecto!

(Vperiod, n.º 3, 24 (11) de Janeiro de 1905.
Lenine, Oeuvres, tomo 8, p. 64.
Éditions du Progrès, Moscovo, 1973).



REVOLUÇÃO DO TIPO DE 1789 OU DO TIPO DE 1848?


Uma questão importante relacionada com a revolução russa exprime-se nestes termos:
1. Conseguirá ela derrubar inteiramente o governo czarista e instituir a república?
2. Ou resumir-se-á a limitar, a restringir o poder imperial, estabelecendo uma constituição monárquica?
Por outras palavras: teremos uma revolução do tipo de 1789 ou do tipo de 1848? (Dizemos do tipo para afastar a ideia absurda da possibilidade de repetição das situações sociais, políticas e internacionais, para sempre ultrapassadas, de 1789 e 1848).
Não existem muitas dúvidas de que os sociais-democratas devem desejar a realização da primeira hipótese e tender nesse sentido.
Ora, a forma como Martinov coloca a questão redunda completamente no desejo seguidista de uma revolução muito modesta. Admitido o segundo tipo, o “perigo” da tomada do poder pelo proletariado e pelos camponeses, perigo que assusta os Martinov, fica completamente afastado.
Na segunda hipótese, a social-democracia terá inevitavelmente de “manter-se na oposição” mesmo em relação à revolução – e Martinov entende precisamente manter-se na oposição mesmo em relação à revolução.
Perguntemos: qual é o tipo mais provável?
Argumentos a favor do primeiro tipo: 1) a cólera acumulada no seio das classes inferiores da sociedade russa, o seu estado de espírito revolucionário, numa medida muito mais forte do que na Alemanha de 1848; temos de passar por uma viragem mais brusca, não existiram e não existem entre nós graus intermédios de qualquer espécie entre a autocracia e a liberdade política (os zemstvos não contam), contamos com um despotismo puramente asiático; 2) uma guerra desastrosa torna ainda mais provável, no nosso caso, um colapso brusco, fazendo cair na lama definitivamente o governo do czar? 3) a situação internacional é-nos mais favorável, devendo a Europa proletária tornar impossível o apoio dos monarcas europeus à monarquia russa; 4) o desenvolvimento dos partidos revolucionários conscientes, das suas publicações e das suas organizações é muito superior entre nós do que era em 1789, 1848 e em 1871; 5) existem entre nós numerosas nacionalidades oprimidas pelo czarismo: polacos, finlandeses, etc., que tornam particularmente vigoroso o assalto à autocracia; 6) a classe camponesa está entre nós particularmente arruinada, remetida a uma miséria inacreditável e já não tem nada a perder.
Todas estas considerações não são evidentemente absolutas. Podemos opor-lhes outras: 1) existem entre nós muito poucos vestígios da feudalidade; 2) o governo é mais experiente e dispõe largamente dos meios que lhe permitem desmontar o perigo revolucionário; 3) a guerra perturba a espontaneidade de uma explosão revolucionária colocando problemas estranhos à revolução. A guerra demonstra a fraqueza das classes revolucionárias russas que não estavam em estado de se sublevarem sem a guerra (cf. A revolução social de Karl Kautsky); 4) não recebemos qualquer impulso revolucionário por parte de outros países; 5) os movimentos nacionais que tendem para o desmembramento da Rússia são susceptíveis de afastar da nossa revolução a massa da pequena e da grande burguesia russa; 6) o antagonismo entre o proletariado e a burguesia é entre nós muito mais profundo do que era em 1789, 1848 1871; desta forma, a burguesia irá de tal modo temer a revolução proletária que se entregará nos braços da reacção.
É evidente que só a história poderá pesar os prós e os contras. A nossa tarefa, enquanto sociais-democratas, é de levar tão longe quanto possível a revolução burguesa, sem nunca esquecer o nosso objectivo principal: a organização autónoma do proletariado.
E é neste ponto que Martinov cai na confusão. Uma revolução completa é a tomada do poder pelo proletariado e pelos camponeses pobres. Ora, estas camadas, uma vez no poder, terão que tender para uma revolução socialista. Logo, a tomada do poder, que no início não passará de um acto da revolução democrática, tornar-se-á por força das circunstâncias, contra a vontade (e por vezes a consciência) dos seus participantes, uma revolução socialista. Então, a derrocada será inevitável. E se a derrota das tentativas de revolução socialista é inevitável, devemos (como Marx que previa em 1871 a inevitável derrota da insurreição parisiense) recomendar ao proletariado para não se insurgir, esperar, organizar-se, recuar para melhor avançar.
Seria este o raciocínio de Martinov (e da nova Iskra) se o aprofundasse até ao fim.

(Redigido em Março-Abril 1905.
Publicado pela primeira vez em 1926.
Lenine, Oeuvres, tomo 8, pp. 256-258.
Ed. du Progrès, Moscovo, 1973).


A REVOLUÇÃO EDUCA


As divergências de opinião entre partidos políticos e no seu interior são em geral resolvidas pelo próprio correr da vida política e pelos debates teóricos. Em especial, sob a pressão dos acontecimentos, que desmentem os raciocínios errados e os privam da sua razão de ser, lhes retiram toda a actualidade, aqueles que defendiam essas opiniões passam a formas de luta válidas, e os desacordos sobre a táctica do Partido, isto é, sobre o seu comportamento político, são resolvidos na prática. Daqui não se segue, naturalmente, que as divergências de princípio nas questões de táctica não exijam clarificações de princípio, as únicas que podem manter o Partido à altura das suas convicções teóricas. Segue-se apenas que é necessário, tantas vezes quantas possível, submeter as decisões tácticas à contraprova dos novos acontecimentos políticos. Essa contraprova é necessária, tanto do ponto de vista da teoria como do da prática: da teoria, para nos convencermos pelos factos da justeza das resoluções adoptadas e darmo-nos conta das modificações que é preciso introduzir-lhes, em resultado dos novos acontecimentos políticos surgidos; da prática, para aprendermos a inspirar-nos verdadeiramente nessas resoluções, a vê-las como directivas destinadas a uma aplicação imediata e efectiva.
Uma época revolucionária oferece, mais que qualquer outra, graças à rapidez vertiginosa da evolução política e à exasperação dos choques políticos, a oportunidade de praticar essa contraprova. A antiga “superestrutura” abre fendas, enquanto a nova é edificada à vista de todos pelas mais diversas forças sociais, cuja verdadeira natureza é revelada na acção.
A revolução russa oferece-nos assim, quase de semana a semana, uma documentação política espantosamente rica, que nos permite verificar as nossas decisões tácticas elaboradas anteriormente e nos fornece as lições mais edificantes no que respeita a toda a nossa actividade prática.
Observemos os acontecimentos de Odessa. Uma tentativa insurreccional que termina em fracasso – uma derrota amarga e pesada. Mas que abismo entre este revés na luta e os reveses no regateio que chovem sobre os Chipov, Trubetskoi, Petrunkevitch, Struvé e toda essa criadagem burguesa do czar! Dizia Engels: “Os exércitos derrotados ganham com a lição”. Este excelente dito aplica-se infinitamente melhor ainda aos exércitos revolucionários, cujos efectivos são formados pelos representantes das classes de vanguarda. Enquanto não for varrida a superestrutura velha e minada, cuja podridão contamina todo o povo, qualquer nova derrota dará origem a exércitos sempre renovados de combatentes. Sem dúvida, há ainda a experiência colectiva, muito mais vasta, da humanidade, inscrita na história da democracia internacional e da social-democracia internacional e fixada pelos representantes avançados do pensamento revolucionário. É a essa experiência que o nosso partido vai buscar os elementos da sua propaganda e da sua agitação diárias. Mas, enquanto a sociedade estiver edificada sobre a opressão e a exploração dos milhões de trabalhadores, são raros os que podem aproveitar directamente das lições dessa experiência. As massas aprendem sobretudo pela sua própria experiência e pagam cada lição com sacrifícios terríveis. A lição de 9 de Janeiro foi cruel, mas ganhou para a revolução o proletariado de toda a Rússia. A lição do levantamento de Odessa é cruel mas, vindo somar-se a um estado de espírito já revolucionário, ensinará o proletariado revolucionário a vencer e não apenas a bater-se. O exército revolucionário foi batido, viva o exército revolucionário! – eis o que dizemos depois dos acontecimentos de Odessa.
Já no nº 7 do nosso jornal escrevemos que a insurreição de Odessa iluminava com uma luz nova as nossas palavras de ordem “Exército revolucionário e governo revolucionário”. Falámos no número anterior das lições da insurreição do ponto de vista militar (ver o artigo do camarada V. S.). Neste número detemo-nos uma vez mais sobre as suas lições políticas (ver “A revolução das cidades”). Convém proceder agora à verificação das nossas decisões tácticas recentes, sob o duplo ponto de vista, de que falávamos atrás, do acerto teórico e da oportunidade prática.
A insurreição e o governo revolucionário são no momento presente os problemas políticos mais imediatos. Foram os problemas que provocaram mais discussões entre os social-democratas. As principais resoluções do III Congresso do POSDR e da conferência dos secessionistas são-lhes dedicadas. É oportuno portanto perguntar como se manifestam essas divergências depois do levantamento de Odessa. Todo aquele que se dê ao trabalho de reler agora, por um lado, as opiniões expressas e os artigos escritos sobre esse levantamento e, por outro lado, as quatro resoluções dedicadas pelo congresso do Partido e pela conferência da nova Iskra à insurreição e ao governo provisório, verá desde logo que a nova Iskra evolui ao sabor dos acontecimentos e adopta na prática as posições dos seus adversários; por outros termos, conforma-se não às suas próprias resoluções, mas às do III Congresso. Não há melhor crítica a uma doutrina errada do que os acontecimentos revolucionários.
A redacção da Iskra, publicou, sob a influência dos acontecimentos, um manifesto intitulado “A primeira vitória da revolução”, dirigido “aos cidadãos russos, aos operários, aos camponeses”. Eis as suas passagens essenciais:

“É chegada a hora de agir audaciosamente e de apoiar com todas as nossas forças a corajosa revolta dos soldados. A partir de agora a vitória caberá aos audaciosos!
Convocai abertamente assembleias populares e comunicai-lhes o desmoronamento dos alicerces militares do czarismo! Apoderai-vos logo que possível das administrações municipais e transformai-as em bases da auto-administração do povo! Expulsai os funcionários do czar, procedei à eleição por sufrágio universal dos órgãos de auto-administração revolucionária, aos quais confiareis a gestão provisória dos assuntos públicos até à vitória final sobre o governo do czar, até ao estabelecimento do novo regime. Apoderai-vos das sucursais do Banco do Estado e dos depósitos de armas, armai o povo! Estabelecei a ligação entre as cidades, e das cidades com os campos. Que os cidadãos em armas não tardem em apoiar-se mutuamente, onde quer que seja necessário. Apoderai-vos das prisões e libertai os nossos irmãos de luta; eles virão reforçar as vossas fileiras! Proclamai por toda a parte a destituição da monarquia imperial e a sua substituição por uma república democrática livre! Erguei-vos, cidadãos, é chegada a hora da libertação! Viva a revolução! Viva a República democrática! Viva o exército revolucionário! Abaixo a autocracia!”

Temos aqui um apelo resoluto, claro e franco à insurreição armada geral. Temos também um apelo não menos resoluto (embora infelizmente velado e incompleto) à formação de um governo provisório revolucionário. Comecemos pelo problema da insurreição.
Existe divergência de princípio entre as soluções dadas a este problema pelo III Congresso e pela conferência? Sim, incontestavelmente. Já a referimos no nº 6 de Proletari, de 3 de Julho (“O terceiro passo atrás”); invoquemos agora o edificante testemunho de Osvobojdenié. Lemos no nº 72 desta revista que a “maioria” cai no “revolucionarismo abstracto, na ideia feita da revolta, no desejo de levantar a qualquer preço as massas populares e de se apoderar em seu nome do poder”. “A minoria, pelo contrário, embora mantendo-se firmemente fiel ao dogma marxista, salvaguarda ao mesmo tempo os elementos realistas do pensamento marxista”. Esta apreciação, vinda de liberais que passaram pela escola preparatória do marxismo e pelo bernsteinismo, é preciosa em extremo. Os burgueses liberais sempre censuraram à ala revolucionária da social-democracia o seu “revolucionarismo abstracto e a sua ideia feita da revolta”. Sempre louvaram o “espírito realista” da ala oportunista. A própria Iskra foi forçada a reconhecer (ver no nº 73 a nota sobre a aprovação dada pelo Sr. Struvé ao “espírito realista” da brochura do camarada Akimov) que, na boca da gente da Osvobojdenié, “realista” quer dizer “oportunista”. Em matéria de realismo, os cavalheiros da Osvobojdenié só conhecem o realismo rastejante. A dialéctica revolucionária do realismo marxista, que sublinha os objectivos de combate da classe de vanguarda e descobre naquilo que existe os elementos da sua destruição, é-lhes completamente estranha. Por isso, a definição das duas tendências da social-democracia dada pela Osvobojdenié confirma mais uma vez o facto, provado pelos nossos escritos, de que a “maioria” é a ala revolucionária da social-democracia russa e a “minoria”, a sua ala oportunista.
A Osvobojdenié reconhece sem meias tintas que “a conferência da minoria adopta em relação à insurreição armada uma atitude inteiramente diferente” da do congresso. E o caso é que a resolução da conferência: 1º) derruba-se a si própria, tão depressa negando a possibilidade de uma insurreição concertada e conjunta (parágr. 1), como admitindo-a (ponto d); 2º) limita-se a enumerar as condições gerais da “preparação da insurreição”, tais como: a) extensão da agitação; b) reforço dos laços com o movimento de massas; c) desenvolvimento da consciência revolucionária; d) ligação entre as diversas localidades; e) apoio ao proletariado da parte dos grupos não proletários. A resolução do congresso, pelo contrário, formula palavras de ordem positivas, reconhecendo que o movimento torna já a insurreição necessária, convidando a organizar o proletariado pela luta imediata, a tomar as medidas mais enérgicas para o armar, a explicar na propaganda e na agitação “não apenas o alcance político” da insurreição (que é o que se limita, no fundo, a fazer a resolução da conferência), mas também as questões práticas e organizativas que ela suscita.
A fim de captar melhor a diferença entre as duas soluções, recordemos como evoluíram as ideias social-democratas sobre a insurreição, desde a origem do movimento operário de massa. Primeira etapa, 1897. As tarefas dos social-democratas russos de Lenine dizem que “querer decidir desde agora a questão dos meios a que a social-democracia recorrerá para derrubar a autocracia, querer decidir se ela escolherá a insurreição ou a greve política de massa, ou qualquer outro procedimento ofensivo – seria como se generais reunissem um conselho de guerra sem ter ainda reunido um exército” (p. 18). Como vemos, não se trata aqui de preparar a insurreição mas unicamente de formar o exército, ou seja, fazer propaganda, agitação, organização em geral.
Segunda etapa, 1902. Lemos em Que fazer? de Lenine:

“Imagine-se uma insurreição popular. Todos concordarão hoje, sem dúvida (Fevereiro de 1902), que devemos pensar nela e prepará-la. Mas como preparar-nos? Decerto ninguém espera que um Comité Central nomeie agentes em todas as localidades para preparar a insurreição. Mesmo que tivéssemos um Comité Central e que este tomasse tal medida, nas condições actuais da Rússia nada conseguiria. Pelo contrário, uma rede de agentes que se tenha formado por si mesma no trabalho de criação e difusão de um jornal comum não deveria ficar à espera, “de braços cruzados”, pela palavra-de-ordem da insurreição; realizaria justamente um trabalho regular, que lhe garantiria, em caso de insurreição, o máximo de hipóteses de êxito – trabalho que reforçaria os laços com as massas operárias mais profundas e com todas as camadas da população descontentes com a autocracia, o que é tão importante para a insurreição. É no decurso desse trabalho que se aprenderá a avaliar exactamente a situação política geral e, por consequência, a escolher o momento mais favorável para a insurreição. É esta acção que ensinará todas as organizações locais a reagir simultaneamente aos problemas, incidentes ou acontecimentos políticos que apaixonam toda a Rússia; a responder a esses “acontecimentos” da forma mais enérgica, mais uniforme e mais racional possível. Porque, no fundo, a insurreição é a ‘resposta’ mais enérgica, mais uniforme e mais racional, dada por todo o povo ao governo. Esta acção, precisamente, ensinará todas as organizações revolucionárias, em todos os pontos da Rússia, a manter entre si relações mais regulares e ao mesmo tempo mais clandestinas, relações que criam a unidade efectiva do Partido e sem as quais é impossível discutir conjuntamente o plano da insurreição e tomar, em vésperas desta, as medidas preparatórias necessárias, mantidas no mais rigoroso segredo” (pp. 136-137).

Quais são os postulados destas reflexões sobre a insurreição? 1. É absurdo conceber a “preparação” de uma insurreição como a nomeação de agentes especiais que “aguardam” a palavra-de-ordem de braços cruzados. 2. É necessário um laço, formado no trabalho comum, entre homens e organizações desenvolvendo um trabalho regular. 3. É necessário consolidar neste mesmo trabalho a ligações entre as camadas proletárias (operárias) e não proletárias (todos os descontentes) da população. 4. É necessário aprender colectivamente a avaliar com acerto as situações políticas e a “reagir” aos acontecimentos políticos da forma mais apropriada. 5. É necessário unir efectivamente entre si todas as organizações revolucionárias locais.
Estamos pois em presença de uma palavra-de-ordem, nitidamente formulada, de preparação da insurreição, mas ainda sem fazer apelo directo à insurreição, sem se dizer que o momento “torna já” a insurreição necessária, que é necessário armar-se de imediato, formar grupos de combate, etc. Estamos perante uma análise das condições de preparação da insurreição, que são repetidas, de forma quase literal, na resolução da conferência (em 1905!).
Terceira etapa, 1905. É dado um novo passo em frente no jornal Vpériod e, mais tarde, na resolução do III Congresso: para além da preparação política geral da insurreição, é lançada a palavra-de-ordem directa de organização e de armamento com vista à insurreição, de formação de grupos especiais (de combate), porque o movimento “torna já necessária a insurreição armada” (segundo ponto da resolução do Congresso).
Esta breve evocação histórica conduz-nos a três conclusões incontestáveis: 1ª) É pura mentira a afirmação dos burgueses liberais da Osvobojdenié de que nós caímos no “revolucionarismo abstracto, na ideia feita da revolta”. Sempre colocámos e continuamos a colocar esta questão em termos concretos e não “no abstracto”; demos-lhe soluções diferentes em 1897, em 1902 e em 1905. A acusação de uma ideia feita de revolta não passa de uma frase oportunista na boca de respeitáveis liberais burgueses que se preparam para trair os interesses da revolução e passar-se para o campo inimigo no momento da luta decisiva contra a autocracia. 2ª) A conferência da nova Iskra deteve-se na segunda etapa do desenvolvimento da questão. Limitou-se em 1905 a repetir o que só em 1902 era suficiente. Leva três anos de atraso sobre a progressão da revolução. 3ª) Sob a influência das lições da vida, e mais precisamente da insurreição de Odessa, os neo-iskristas reconheceram de facto a necessidade de se guiar, não pela sua própria resolução, mas pela do congresso; por outras palavras, reconheceram que o problema da insurreição não consente qualquer atraso e que os apelos prementes e directos à organização imediata do armamento e da insurreição são incontestavelmente necessários.
A doutrina da social-democracia retardatária foi desde logo rejeitada pela revolução. É menos um obstáculo à união prática num trabalho comum com o grupo da nova Iskra, o que aliás não significa ainda a eliminação completa das divergências de princípio. Não podemos contentar-nos em ver as nossas palavras-de-ordem tácticas esfalfar-se a correr atrás dos acontecimentos e adaptar-se-lhes com atraso. Devemos esforçar-nos por que sejam guias a iluminar-nos o caminho, a elevar-nos acima das tarefas o momento. O partido do proletariado, se quiser conduzir uma luta consequente e firme, não pode determinar a sua táctica no dia-a-dia. As suas decisões tácticas devem unir a fidelidade aos princípios do marxismo com uma apreciação infalível das tarefas de vanguarda da classe revolucionária.
Consideremos agora uma outra questão política premente, a do governo revolucionário provisório. Vemos aqui, talvez melhor ainda, a redacção da Iskra romper, de facto, no seu manifesto, com as palavras-de-ordem da conferência para adoptar as palavras-de-ordem tácticas do III Congresso. O absurdo teórico de “não traçar como objectivo a conquista” (pela revolução democrática) “ou a partilha do poder, no governo provisório” é lançada pela borda fora, visto que o manifesto apela com todas as letras a “apoderar-se das administrações municipais” e a organizar a “gestão provisória dos assuntos públicos”. A absurda palavra-de-ordem de “permanecer como o partido da oposição revolucionária extrema” (absurda numa época de revolução, embora muito justa numa época de luta unicamente parlamentar) é de facto mandado para os arquivos, visto que os acontecimentos de Odessa obrigaram a Iskra a compreender que é ridículo manter-se agarrada a essa palavra-de-ordem quando surge a insurreição e é necessário apelar activamente à insurreição, à acção mais enérgica e à utilização do poder revolucionário. A absurda palavra-de-ordem das “comunas revolucionárias” é também mandada para o refugo, porque os acontecimentos de Odessa fizeram a Iskra compreender que só facilitava a confusão entre as revoluções socialista e democrática. Ora, confundir coisas tão diferentes seria dar prova de uma tendência para a aventura, atestaria uma ausência total de clareza no pensamento teórico, e poderia entravar a realização das medidas práticas mais urgentes, destinadas a facilitar à classe operária a luta pelo socialismo na República democrática.
Recordemos a polémica da nova Iskra com Vpériod e a sua táctica “só pela base”, oposta à do Vpériod: “pela base e pelo topo”, e veremos que a Iskra adoptou a nossa solução – agora apela também à acção por cima. Recordemos como a Iskra concluía que nós caíamos em compromisso ao assumir a responsabilidade pela tesouraria, pelas finanças, etc., e veremos que, se os nossos argumentos não convenceram a Iskra, os acontecimentos acabaram por se encarregar de lhe demonstrar a sua justeza – agora recomenda com todas as letras, no manifesto citado, “apoderai-vos das sucursais do Banco do Estado”. A absurda teoria segundo a qual a ditadura revolucionária democrática do proletariado e dos camponeses, a sua participação comum no governo revolucionário provisório, seria uma “traição à causa do proletariado”, seria “jauresismo (millerandismo) vulgar”, é muito simplesmente esquecida pelos neo-iskristas, que agora convidam esses mesmos operários e camponeses a tomar posse das administrações municipais, das sucursais do Banco do Estado, dos depósitos de armas, a “armar o povo” (armá-lo, pelos vistos, com armas, e já não apenas com a “ardente necessidade de se armar”), a proclamar a destituição da monarquia autocrática, etc. –, numa palavra, a agir em tudo de acordo com o programa traçado pela resolução do III Congresso, a agir precisamente como indica a palavra-de-ordem da ditadura revolucionária democrática e do governo revolucionário provisório.
É certo que a Iskra não menciona no seu manifesto nem uma nem outra destas palavras-de-ordem. Enumera e descreve todas as acções cujo conjunto caracteriza o governo revolucionário provisório mas evita pronunciar essa palavra. Faz mal. O facto é que adopta na realidade essa palavra-de-ordem. A ausência de um termo nítido tenderá a provocar hesitações, a semear a indecisão e a confusão no espírito dos combatentes. O receio das palavras “governo revolucionário”, “poder revolucionário”, é um sentimento puramente anarquista e indigno de marxistas. Para se “apoderar” das administrações dos bancos, “proceder a eleições”, encarregar da “gestão provisória dos assuntos”, “proclamar a destituição da monarquia, é evidentemente indispensável começar por criar e proclamar um governo revolucionário. Sem essa unificação, sem o reconhecimento geral do governo provisório pelo conjunto do povo revolucionário, sem a transferência da totalidade do poder para esse governo, qualquer “tomada” das administrações, qualquer “proclamação” da República, não passará de um puro e simples gesto de revolta sem alcance sério. A energia revolucionária do povo, se não for concentrada por um governo revolucionário, estará condenada a dispersar-se após o primeiro êxito da insurreição, consumir-se-á em ninharias, perderá a amplitude nacional e não conseguirá conservar aquilo que for tomado nem realizar o que for proclamado.
Repitamo-lo: de facto, na realidade, os social-democratas que se recusam a reconhecer as decisões do III Congresso do POSDR são forçados pelos acontecimentos a agir de acordo com essas mesma decisões e a lançar borda fora as palavras-de-ordem da sua conferência. A revolução educa. A nossa missão é aproveitar as suas lições até à última gota, pôr as nossas palavras-de-ordem tácticas em acordo com a nossa conduta e com as nossas tarefas imediatas, difundir entre as massas ideias correctas sobre essa tarefas imediatas, proceder amplamente e por toda a parte à organização dos operários, com vista ao combate e à insurreição, para a criação do exército revolucionário e a formação do governo revolucionário provisório!

(Proletari, nº 9, 26 (13) d Julho de 1905,
Lenine, Oeuvres, tomo 9, pp. 146-156.
Éditions du Progrès, Moscovo, 1974).



REVOLUÇÃO E CONTRA-REVOLUÇÃO


Em Outubro de 1905, o ascenso revolucionário na Rússia chegou ao apogeu. Expulsando do caminho a Duma de Buliguine, o proletariado chamou largas massas populares à luta directa contra a autocracia. Neste mês de Outubro de 1907, pelo contrário, vivemos manifestamente um período de declínio extremo da luta aberta das massas. Mas este período de declínio, que vem desde a derrota de Dezembro de 1905, não foi marcado apenas pela difusão das ilusões constitucionais, mas também pela sua falência total. A terceira Duma, convocada depois da dissolução das duas primeiras e do golpe de Estado de 3 de Junho, pôs um fim evidente ao período de fé na coabitação pacífica entre a autocracia e a representação popular, e inaugurou uma era nova no desenvolvimento da revolução.
Num momento como aquele que vivemos, a comparação entre a revolução e a contra-revolução na Rússia, a comparação entre o período de crescimento revolucionário (1905) e aquele em que a contra-revolução “brinca” à Constituição (1906 e 1907), impõe-se desde logo ao espírito. Encontramo-la necessariamente em qualquer definição da linha política a seguir no futuro próximo. Opor os “erros da revolução” ou as “ilusões revolucionárias” ao “trabalho constitucional positivo”, eis a primeira ideia em torno da qual gira a literatura política actual. É a ideia que clamam os cadetes* nos comícios eleitorais. É a ideia que canta, uiva e desenvolve a imprensa liberal. A começar pelo Sr. Struvé, que lança com paixão e raiva sobre os revolucionários o despeito que lhe causa o insucesso definitivo das suas esperanças de um “compromisso”. A começar por Miliukov, a quem o curso dos acontecimentos obrigou, apesar das suas momices e do seu jesuitismo, a declarar de forma clara, precisa e, melhor ainda, verdadeira: “O inimigo está na esquerda”. A começar pelos publicistas do género de Tovarichtch, Kuskova, Smirnov, Plekhánov, Horn, Jordanski, Tchérévanine, etc., que desaprovam a luta de Outubro-Dezembro como uma loucura e defendem, mais ou menos abertamente, uma coligação “democrática” com os cadetes. Os verdadeiros elementos cadetes desta corrente pantanosa exprimem os interesses contra-revolucionários da burguesia, assim como o servilismo sem limites da pequena burguesia intelectual. Quanto aos elementos que não foram ainda tão longe como Struvé, esses distinguem-se essencialmente pela sua incompreensão do laço que liga a revolução à contra-revolução na Rússia, pela sua incapacidade para apreciar o conjunto do que vivemos como um movimento social que forma um todo e que se desenvolve segundo a sua própria lógica interna.
O período de ascenso revolucionário mostrou na acção a composição de classe da população da Rússia e a atitude das diferentes classes face á velha autocracia. Hoje, os acontecimentos ensinaram a todos, mesmo a pessoas completamente alheias ao marxismo, que a era da revolução começa com o 9 de Janeiro de 1905, isto é, com o primeiro movimento político consciente de massas pertencentes a uma determinada classe. Quando, a partir da análise das realidades económicas da Rússia, a social-democracia concluiu pelo papel preponderante, pela hegemonia do proletariado na nossa revolução, houve quem pensasse que se tratava de um entusiasmo livresco de teóricos. Mas a revolução veio confirmar a nossa teoria, dado que esta era a única teoria revolucionária. E, de facto, o proletariado manteve-se sempre à cabeça da revolução. E, de facto, a social-democracia surgiu como a vanguarda ideológica do proletariado. Sob a direcção do proletariado, a luta das massas desenvolveu-se com uma rapidez extraordinária, de forma mais rápida do que esperariam muitos revolucionários. Durante um ano, esta luta elevou-se às formas de impulso revolucionário mais decisivas conhecidas na história: até à greve de massa e à insurreição armada. A organização das massas proletárias desenvolveu-se com uma rapidez de relâmpago no próprio decurso da luta. No encalço do proletariado, outras camadas da população começavam a organizar-se e a constituir os quadros de combate do povo revolucionário. Primeiro a massa semiproletária dos empregados de todas as categorias, depois a democracia camponesa, os profissionais intelectuais, etc. O período das vitórias proletárias constituiu um período de desenvolvimento da organização das massas sem precedentes na Rússia e de dimensões gigantescas, mesmo no plano europeu. O proletariado obteve nessa época toda uma série de melhorias das suas condições de trabalho. Amassa camponesa conseguiu uma “atenuação” do arbítrio feudal, uma redução das rendas e dos preços de venda da terra. Toda a Rússia obteve liberdades consideráveis de reunião, de palavra e de associação. Para além disso, a autocracia teve que renunciar no plano nacional ao antigo estado de coisas e reconhecer a Constituição.
Tudo o que foi conquistado até hoje pelo movimento de libertação na Rússia foi-o inteiramente e em exclusivo pela luta revolucionária das massas dirigidas pelo proletariado.
A viragem no desenvolvimento da luta produz-se com a derrota da insurreição de Dezembro. Passo a passo, a contra-revolução passou ao ataque à medida que se enfraquecia a luta das massas. Na época da I Duma, essa luta traduzia-se ainda com força pela intensificação do movimento camponês, por uma destruição em larga escala dos ninhos de proprietários semifeudais, por toda uma série de sublevações entre os soldados. Nesse tempo, a reacção tinha que avançar lentamente e não se atrevia a ir de chifre até ao golpe de Estado. É só depois da repressão dos levantamentos de Sveaborg e de Cronstadt, em Julho de 1906, que se mostra mais ousada, instaura um regime militar, começa a suprimir pouco a pouco o direito de voto (explicações do Senado), monta finalmente cerco policial à II Duma e revoga por completo a famosa Constituição. Todas as organizações de massas surgidas espontaneamente foram substituídas nesse momento por uma “luta legal” no quadro da Constituição policial revista pelos Dubássov e os Stolypine. A supremacia da social-democracia deu lugar à supremacia dos cadetes, que reinaram como senhores nas duas Dumas. O período de declínio do movimento de massas permitiu a expansão do partido dos cadetes, que exploraram esse declínio, fazendo o papel de “campeões” da causa da Constituição; que tudo fizeram para alimentar no povo a fé nessa Constituição e pregado a necessidade de se limitar à luta “parlamentar”.
A falência da “Constituição cadete” é a falência da táctica cadete e da hegemonia cadete na luta emancipadora. Reflexo de interesses de classe, o carácter de todos os raciocínios do nosso liberalismo sobre o tema das “ilusões revolucionárias” e dos “erros da revolução” surge com clareza quando comparamos os dois períodos da revolução. Enquanto a luta de massa dos proletários tinha dado vitórias a todo o povo, a direcção do movimento pelos liberais só lhe deu derrotas. O impulso revolucionário do proletariado não cessara de desenvolver a consciência das massas e o seu grau de organização, propondo-lhes tarefas sempre mais elevadas, aumentando a sua participação independente na vida política e ensinando-as a bater-se; mas a hegemonia dos liberais só serviu, durante as duas Dumas, para baixar a consciência das massas, prejudicar a sua organização revolucionária, embotar o seu sentido das tarefas democráticas.
Os chefes liberais da I e da II Duma fizeram perante o povo uma soberba demonstração da “luta” legal travada de joelhos. Resultado: feudais autocráticos riscaram duma penada o paraíso constitucional dos tagarelas liberais e zombaram da subtil diplomacia dos sujeitos que fervilham nas antecâmaras ministeriais. Enquanto a revolução russa durou, os liberais não inscreveram no seu activo a menor vitória, o menor êxito, a menor acção favorável à democracia e que permitisse organizar as forças populares na luta pela liberdade.
Antes de Outubro de 1905, os liberais tinham por vezes mantido uma atitude de neutralidade simpatizante para com a luta revolucionária das massas; mas a partir daí começaram a opor-se-lhe, enviando uma delegação a fazer abjectos discursos ao czar, dando o seu apoio à Duma de Bulyguine – e isto não por irreflexão, mas por hostilidade declarada à revolução. Depois de Outubro de 1905, a única coisa que os liberais fizeram foi atraiçoar vergonhosamente a causa da liberdade do povo.
Em Novembro de 1905, mandaram o Sr. Struvé ter uma conversação íntima com o Sr. Witte. Na Primavera de 1906, sabotaram o boicote revolucionário pela sua recusa a pronunciar-se abertamente perante a Europa contra o empréstimo, ajudaram o governo a obter os milhões necessários para reconquistar a Rússia. No Verão de 1906, regatearam por trás da cortina com Trepov algumas pastas ministeriais e travaram na I Duma o combate contra as “esquerdas”, ou seja, contra a revolução. Em Janeiro de 1907, apoiaram o governo na II Duma. A revolução desmascarou o liberalismo com uma rapidez notável e revelou, baseada em provas, a sua natureza contra-revolucionária.
Deste ponto de vista, o período das esperanças constitucionais teve a sua vantagem para o povo. A experiência da I e da II Duma permitiu não apenas ver a indigência do papel desempenhado pelo liberalismo na nossa revolução. Pôs também termo às tentativas para dirigir o movimento democrático da parte de um partido que só crianças em matéria política ou tontos senis podem considerar como realmente constitucional”Democrata”.
Em 1905 e no início de 1906, a composição de classe da democracia burguesa ainda não era clara para todos. Nem só os habitantes ignaros e embrutecidos dos buracos da província depositavam as suas esperanças na possibilidade de combinar a autocracia com uma representação efectiva e minimamente ampla das massas populares. As próprias esferas dirigentes da autocracia não estavam isentas dessas esperanças. Porque dava a lei eleitoral uma representação tão importante ao campesinato na Duma de Bulyguine e na de Witte? Porque ainda se julgava que os campos eram a faor da monarquia. “O camponês vai tirar-nos de dificuldades”, exclamava o jornal governamental na Primavera de 1906, exprimindo assim a esperança do governo de que poderia contar com o conservadorismo das massas camponesas. Nesse tempo, os cadetes não só não se apercebiam do antagonismo entre o espírito democrático dos camponeses e o liberalismo burguês, como temiam mesmo que os camponeses estivessem demasiado atrasados. Por isso desejavam apenas uma coisa: que a Duma contribuísse para transformar o camponês conservador ou indiferente num liberal. Na Primavera de 1906 o Sr. Struvé exprimia um voto audacioso ao escrever: “Na Duma o camponês será cadete”. No Verão de 1907 o mesmo Sr. Struvé chamava à luta contra os partidos do trabalho ou da esquerda, em que via o obstáculo principal a um contrato entre o liberalismo burguês e a autocracia. Durante um ano e meio, os liberais substituíram a palavra-de-ordem da luta pela educação política dos camponeses pela da luta contra o camponês “demasiado” exigente e demasiado educado politicamente!
Esta mudança de palavra-de-ordem traduz com a máxima clareza a falência total do liberalismo na revolução russa. O antagonismo de classe entre a massa democrática dos camponeses e os proprietários semifeudais revelou-se bastante mais profundo do que imaginavam os poltrões e os espíritos tacanhos do partido cadete. Por isso fracassou tão rapidamente e de forma tão completa a sua tentativa de assumir a direcção da luta pela democracia. Também por essa razão que se afundou no fiasco a sua “linha” visando conciliar a massa democrática pequeno-burguesa do povo com os proprietários outubristas e Cem-Negros. A grande mas negativa vitória do período contra-revolucionário das duas Dumas é a falência da política de traição destes “combatentes” pela “liberdade do povo”. A luta de classe, efectuando-se pela base, lançou pela borda fora esses heróis de antecâmara ministerial e transformou-os, de pretendentes à direcção, em simples lacaios do outubrismo adornados com uma ligeira camada de verniz constitucional.
Quem ainda hoje não vê essa falência dos liberais, que fizeram a experiência prática do seu valor como combatentes pela democracia ou, pelo menos, como combatentes nas fileiras da democracia, não compreendeu rigorosamente nada da história política das duas Dumas. A repetição absurda de fórmulas feitas sobre a necessidade de apoiar a democracia burguesa transforma-se, nessa gente, em choraminguice contra-revolucionária. Os social-democratas não se devem queixar da falência das ilusões constitucionais; devem dizer o que Marx dizia da contra-revolução na Alemanha: o povo ganhou em ter perdido essas ilusões. A democracia burguesa da Rússia ganhou em ter perdido maus chefes e aliados inconsistentes. Tanto melhor para o seu desenvolvimento político.
Resta ao partido do proletariado agir de modo que as ricas lições políticas da nossa revolução e da contra-revolução sejam entendidas e assimiladas pelas massas de maneira mais profunda. O período de assalto contra a autocracia permitiu ao proletariado desdobrar as suas forças e ensinou-lhe os princípios da táctica revolucionária; mostrou-lhe quais as condições para o êxito da luta directa das massas, a única que será capaz conquistar melhorias realmente válidas. O longo período de preparação das forças do proletariado, da sua educação e da sua organização esteve na origem dos golpes mortais aplicados à velha autocracia russa por centenas de milhares de operários. O longo e pouco espectacular trabalho de direcção de todas as manifestações de luta de classe do proletariado, o trabalho de construção de um partido sólido e consequente – estiveram na origem do desencadeamento da verdadeira luta de massa e criaram as condições favoráveis para transformar essa explosão em revolução. Agora é necessário que o proletariado, como combatente de vanguarda do povo, reforce a sua organização, se desembarace do mofo de todo o oportunismo intelectual, reúne forças para um trabalho tão consequente e obstinado como o anterior. As tarefas que o decurso da história e a situação objectiva das massas colocaram à revolução russa ainda não foram cumpridas. Os elementos de uma nova crise política nacional não desapareceram, pelo contrário, tornaram-se ainda mais profundos e amplificados. A vinda dessa crise colocará de novo o proletariado à frente do movimento nacional. O Partido Operário Social-Democrata deve estar preparado para assumir esse papel; num solo fertilizado pelos acontecimentos de 1905 e dos anos seguintes, a semente dará uma colheita dez vezes melhor. Se, no fim do ano 1905, um milhão de proletários se agruparam atrás de um partido com alguns milhares de militantes conscientes da classe operária, hoje, o nosso partido, que conta dezenas de milhares de social-democratas temperados na experiência da revolução e que, no decurso da luta, se ligaram mais estreitamente às massas dos operários – o nosso partido saberá conduzir dezenas de milhões de combatentes e esmagar o inimigo.
Por outro lado, as tarefas socialistas e democráticas do movimento operário na Rússia tornaram-se incomparavelmente mais nítidas; sob a influência dos acontecimentos revolucionários, passaram aceleradamente a primeiro plano. A luta contra a burguesia elevou-se a um grau superior. Os capitalistas de todo o país, pela sua parte, agrupam-se em associações, estreitam os seus laços com o governo, recorrem com maior frequência aos meios mais extremos da luta económica, procedendo mesmo a lock-outs massivos a fim de “açaimar” o proletariado. Mas só as classes que fizeram o seu tempo receiam as perseguições; o proletariado continua a reforçar-se, tanto em número como em coesão, e com tanta maior rapidez quanto mais velozes são os êxitos dos senhores capitalistas. O desenvolvimento económico da Rússia e de todo o mundo garante a invencibilidade do proletariado. A burguesia começou, pela primeira vez, no decurso da nossa revolução, a agrupar-se como classe, como força política unida e consciente. Isso acelerará a organização de todos os operários da Rússia numa classe unida. O fosso entre o mundo do capital e o mundo do trabalho tornar-se-á mais profundo, a consciência socialista dos operários tornar-se-á mais clara. Enriquecida com a experiência da revolução, a agitação socialista no seio do proletariado ganha em nitidez. A organização política da burguesia é o melhor estimulante para completar a formação de um partido operário socialista.
As tarefas deste partido na luta pela democracia não poderão de agora em diante provocar contestações da parte dos intelectuais “simpatizantes” prontos a passar-se para o lado dos liberais. Para a massa dos operários, essas tarefas definiram-se com uma limpidez tangível no fogo da revolução. O proletariado aprendeu pela experiência que a base, a única base sólida da democracia burguesa, como força histórica na Rússia, é constituída pelas massas camponesas. O papel de chefe dessa massa, na luta contra os proprietários semifeudais e contra a autocracia czarista, já foi preenchido pelo proletariado à escala nacional, e nenhuma outra força poderá desviar hoje o partido operário do seu justo caminho. Chegou ao fim o papel do partido liberal dos cadetes que, sob a bandeira da democracia, empurrava o campesinato para sob a asa do outubrismo; e a social-democracia, apesar de um ou outro choramingas, continuará a explicar às massas as causas da falência dos liberais, a explicar que a democracia burguesa só poderá realizar a sua obra depois de ter rompido com os lacaios do outubrismo.
Ninguém pode dizer hoje qual será o destino da democracia burguesa na Rússia. Não é impossível que a falência dos cadetes leve à formação de um partido democrata camponês, de um verdadeiro partido de massas, e não dessa organização de terroristas em que cristalizaram os socialistas-revolucionários. Também não é impossível que as dificuldades objectivas para o agrupamento político da pequena burguesia impeçam a formação de um partido desses e mantenham ainda por longo tempo a democracia camponesa no seu estado actual de massa trudovik gelatinosa e amorfa. A nossa linha é a mesma, tanto num como no outro caso: forjar as forças democráticas através de uma crítica impiedosa a todas as flutuações, por uma luta intransigente contra a aliança da democracia com o liberalismo, que já fez a prova da sua natureza contra-revolucionária.
Quanto mais longe for a reacção, quanto maior o ímpeto do proprietário Cem-Negros, quanto mais ele dominar a autocracia, mais lento será o desenvolvimento económico da Rússia e o desaparecimento dos vestígios da servidão. Em consequência, mais rápido e mais amplo será o desenvolvimento do espírito democrático combativo e consciente nas massas da pequena burguesia das cidades e dos campos, mais forte a resistência das massas à penúria, às violências e abusos a que os outubristas condenam o campesinato. A social-democracia cuidará, no momento do ascenso inevitável da luta democrática, de impedir que esse bando de arrivistas liberais que se intitula como partido dos cadetes dividam uma vez mais as fileiras da democracia e nelas semeiem a confusão. Ou com o povo, ou contra o povo – tal é a escolha que a social-democracia de há muito fixou a todos os que aspiram ao papel de chefes “democráticos” da revolução. Até ao presente, nem todos os social-democratas souberam ater-se de forma consequente a esta linha; alguns cederam mesmo às promessas dos liberais, alguns não quiseram ver as intrigas dos liberais com a contra-revolução. Hoje estamos elucidados pela experiência das duas primeiras Dumas.
A revolução ensinou ao proletariado a luta de massas. A revolução demonstrou que o proletariado pode arrastar na sua esteira as massas camponesas, na luta pela democracia. A revolução fez do partido um partido puramente proletário, mais estreitamente unido e afastou dele os elementos pequeno-burgueses. A contra-revolução fez perder à democracia pequeno-burguesa o hábito de procurar chefes e aliados no liberalismo, que receia a luta das massas mais do que o fogo. Fortalecidos com a lição dos acontecimentos, podemos dizer audaciosamente ao governo dos proprietários Cem-Negros: Prossigam nesse caminho, Srs. Stolypine e Cia. Seremos nós a colher os frutos que semeais!


(Proletari nº 17, 20 de Outubro de 1907.
Lenine, Oeuvres, tomo 13, pp. 116-125.
Éditions du Progrès, Moscovo, 1973).


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