Ponto de Vista

 

Não queremos Portugal envolvido na guerra suja anti-basca

 

1. Depois de um encontro dos ministros do Interior de Espanha e Portugal, acaba de ser anunciada a formação de uma equipa policial mista luso-espanhola, para activar as investigações em torno de possíveis actividades da ETA em território nacional.

 

É o que se pode chamar matar três coelhos duma caja­dada: usa-se a paranóia “antiterrorista” para dar mais pode­res às polícias, envolve-se o governo português num pro­blema político interno do Estado espanhol e dá-se um primeiro passo para a integração policial ibérica sob co­mando de Madrid.

 

2. Quando o ministro Rui Pereira garante leal colabo­ração ao seu colega espanhol podemos acreditá-lo – ou não fosse ele ex-chefe do SIS. Mas colaboração em quê? Na vigilância sobre os suspeitos de apoio à causa basca.

 

Porque o que está aqui em causa é muito mais do que a ETA. A dramatização forjada em torno das “células terro­ristas” em território nacional é um pretexto para uma cam­panha policial contra todos os que no nosso país mani­festem o seu apoio aos direitos das minorias nacionais de Espanha, e particularmente à causa basca.

 

A caça à ETA vai fornecer novos pretextos para mais vigi­lância, mais escutas telefónicas, mais intimidação.

 

3. As autoridades de Espanha nem se dão ao trabalho de disfarçar a pressão sobre Portugal. O governo de Madrid quer tirar a sua parte de lucro da “guerra mundial ao ter­rorismo”. Com efeito, se Bush pode reclamar dos aliados que enviem contingentes para o Iraque e Afeganistão por­que não pode Zapatero reclamar a colaboração de Sócrates na sua guerra suja anti-basca?

 

E Sócrates embarca gostosamente neste novo “desa­fio”. Já não lhe basta obedecer a Washington e Bruxelas. Agora também recebe ordens de Madrid.

 

4. Até agora, PCP e BE remeteram-se ao silêncio. É ní­tido o seu embaraço. Receiam ser acusados de “amigos dos terroristas” se tomarem uma posição firme e clara nes­ta matéria. A tal degradação chegou esta esquerda que, no tempo do 25 de Abril, exigia acolhimento aos perse­guidos políticos do país vizinho. Mas a sua preocupação actual é ver reconhecida a sua respeitabilidade burguesa.

 

5. Apelamos aos grupos políticos de esquerda, pessoas e colectivos para que afirmem publicamente o seu protesto contra o envolvimento de Portugal nesta campanha. Não aceitemos que se ponha o rótulo de “terrorismo” nos inde­pendentistas do Estado espanhol. Além do mais, ajudar a Espanha a reprimir os independentistas que lutam pelos seus direitos é dar mais força ao Estado espanhol para le­var avante o seu plano de absorção de Portugal. E com isso os povos da Península Ibérica só terão a perder.

 

 

30 de Agosto de 2007

Política Operária

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