Ponto de Vista

 

PROFESSORES  - “Temos que exigir a revogação do Estatuto!”

João Medeiros entrevista Sofia Barcelos

 

 

Há quanto tempo dás aulas? Tens sido sempre colocada? E a tua situação contratual?

 

Acabei a licenciatura em Educação de Infância na Escola Superior de Educação de Lisboa, em Julho de 2004. Du­rante todo o ano desempenhei as mesmas funções que uma colega destacada. No entanto, não ganhei vencimento de professora como ela (eu ganhava salário e meio mínimo nacional mais subsídio de almoço) nem tive contagem de tempo de serviço.

 

Em Agosto de 2005 voltei para Lis­boa com um subsídio de desemprego no valor de 355 euros. Nesse ano con­corri a nível nacional mas não consegui lugar em lado nenhum.

 

Nesse Verão tirei uma pós-graduação em Necessidades Educativas Especiais e no ano lectivo de 2006-07 comecei a leccionar na escola pública em Agualva-Cacém. Conheci uma outra realidade,  um pouco mais dura. Sem direitos ne­nhuns, sem subsídio de almoço, sem se­guro, sem estar abrangida pelo Estatuto da Carreira Docente, sem receber a tem­po e horas. Enfim, tempos duros!  Assim que obtive o meu diploma entrei numa es­cola secundária, a dar Educação Espe­cial. Fiquei a 25 minutos de casa, o sonho de qualquer professor, não é? Mas o con­trato acabou a 31 de Agosto...” Vira o dis­co e toca o mesmo”... começou tudo de novo.

 

Fala-nos um pouco da “estabili­dade” propalada aos quatro ventos  pela Ministra da Educação.

 

Estabilidade é coisa que não há neste momento nas escolas. Toda esta ofensi­va que a ministra tem levado a cabo con­tra os professores, denegrir a imagem dos professores, culpá-los pelo abando­no e insucesso escolares, enfim, todas as medidas demagógicas que têm sido pos­tas em prática pela equipa ministerial, como as ilegalida­des no concurso pa­ra professor ti­tular, a ques­tão da avaliação, o pró­prio Estatuto da Car­reira Docente – há ca­da vez me­nos pessoas que acre­ditam nela, creio eu!

 

Em relação a este con­­­curso, fui ex­cluída com o pretexto de não ter 5 anos de serviço, logo, legal­mente não sou es­pecializada. Ignoram a minha for­mação científica mas em ofer­ta de escola já não o fazem. No dia 31 de Agosto, quan­do começo a fazer uma lei­tura da lis­ta defi­nitiva observo candi­datos na mes­ma si­tuação que eu com me­nos de 5 anos de ser­viço. Então por­que fui ex­cluída? Devo dizer que no nos­so país há uma fal­ta incrível de professo­res nesta área e depois tratam assim as poucas pes­soas que existem.

 

Como  activista sindical, o que pen­sas da eficácia de acções como a con­centração a que assistimos ontem nos Restauradores?

 

Penso que serão mais eficazes no dia em que as pessoas se consciencializarem que a sua presença é imprescindível na luta. No entanto, penso que há uma gran­­de descrença nos sindicatos, sobre­tudo os professores contratados. A inér­cia tem sido grande, e pensa-se que o con­tra­tado é o que menos importa.

 

Como achas que se deve dar conti­nuidade à vossa/nossa luta?

 

Temos (sindicatos, movimentos, as­sociações) que estar atentos, fazer pro­postas concretas, acções de luta eficazes, convencer as pessoas da importância de participarem nesta luta. O caminho ain­da é longo. Parece-me que uma das coi­sas que devemos exigir é a revogação do Estatuto da Carreira Docente! Sem som­bra de dúvida!