Ponto de Vista

 

Centrismo sob capa “esquerdista”

 

No seu artigo “Aprender a lidar com os reformistas” no 110 da PO, Francisco Rodrigues esforça-se por refutar o que classifico de única estratégia revolucionária actual dos comunistas portugueses: dar indicação de voto no PCP e, nal­guns casos, no BE, e trabalhar em conjunto nestes e com estes partidos, mediante comícios, manifestações de rua, acção sindical, fabril e associativa sociocultural, greves parciais ou gerais, etc., pelo derrube do sistema capitalista.

 

Escreve F.M.R. a propósito de eu sublinhar que a absten­ção preconizada pela PO nas eleições presidenciais de 1986, 1991, 1996, 2001, 2006 e nas legislativas faz o jogo da direita: “… não me parece que se possam considerar de vanguarda as tais dezenas de milhares de operários que votam no PCP e no BE. Constituem uma massa popular derrotada e em busca de protecção, que só pela intervenção de uma força exterior poderá deslocar-se de facto para posições de van­guarda”.

 

Antes de mais, façamos um reparo à linguagem tonitro­ante e falaciosa de Francisco Rodrigues: se as dezenas de mi­lhares de sindicalistas operários do PCP e do BE que organizaram a greve geral de 30 de Maio de 2007 e outras, são “uma massa popular derrotada em busca de protecção”, o que são as escassas centenas de militantes da PO que per­manecem à margem da luta concreta? Revolucionários vencedores? Ou doutores em fraseologia revolucionária?

 

LENINISMO: FORTALECER, DE MOMENTO,  A ESQUERDA DO REGIME

 

A respeito da Inglaterra em 1920, onde ainda não existia partido comunista, Lenine advogou que os comunistas in­gleses convidassem os operários a votar nos socialistas Henderson e Snowden contra o liberal Lloyd George, sabendo, no entanto, que estavam fortalecer, momentaneamente, a ala esquerda do regime capitalista:

 

“Agora é muitas vezes difícil aos comunistas ingleses mesmo chegarem à massa, mesmo fazerem-se ouvir. Mas se eu me apresento como comunista e declaro que convido a votar por Henderson contra Lloyd George, certamente que me escutarão. E poderei ex­plicar de modo popular não só porque razão os Sovie­tes são melhores do que o parlamento e a ditadura do proletariado melhor do que a ditadura de Churchill (encoberta com o rótulo de “democracia” burguesa), mas também que quereria sustentar Henderson com o meu voto como a corda sustenta o enforcado; que a aproximação com os Henderson para um governo for­mado por eles provará igualmente que tenho ra­zão, atrairá igualmente as massas para o meu lado e acelerará igualmente a morte política dos Henderson e dos Snowden, tal como sucedeu com os seus cor­religionários na Rússia e na Alemanha.” 1

 

Lenine não tinha receio que os comunistas ingleses, ainda não organizados em partido, (numa “situação caótica”...) se convertessem em satélites dos socialistas. Não temia os com­promissos eleitorais progressistas da vanguarda prole­tária com a pequena e mesmo a média burguesia inglesas. Exactamente o oposto do que teoriza Francisco Rodrigues:

 

“Atribuir aos comunistas, nesta situação caótica, capa­cidade para tirar proveito de manobras eleitorais é so­nhar acordado. Se forças de esquerda, sem progra­ma, sem intervenção política, sem implantação, apela­rem ao voto no PCP e no BE, tornar-se-ão, por muito que não o queiram, simples satélites desses partidos. A ânsia de inverter a relação de forças pelo recurso ao apoio aos reformistas, sem se dispor de forças pró­prias, conduz em linha recta à capitulação perante o reformismo”.

 

Esta passagem manifesta, além de um explícito antileni­nismo, e do receio de a PO ser engolida pelo PCP e pelo BE, uma confissão de revolucionarismo incipiente: então os comunistas (leia-se: militantes da PO) não têm programa?

É uma confissão de praticismo, de espontaneísmo cego – o touro que marra às cegas para derrubar as barreiras do sis­tema. É uma confissão de que a PO é um partido de causas par­celares: apoia este ou aquele confronto de rua de okupas ou de operários com a polícia, perde-se nos detalhes que in­corporam “violência revolucionária” – sempre a mesma a ilusão de a insurreição armada estar à porta, uma inclinação inata que Francisco Rodrigues sempre manifestou desde a criação da FAP em 1964, tomando a nuvem por Juno – mas não tem ainda um programa geral para todos os domínios da sociedade como o PCP e o BE têm.

 

Francisco Rodrigues é, para mim, uma grande figura da resistência ao capital, do mesmo modo que Álvaro Cunhal. Mas, com o devido respeito e admiração, é um comunista “de esquerda”, como os blanquistas de 1874 que recusavam compromissos com fracções da burguesia, um neo-otzovista da Rússia do século XX ou um “ultra-esquerda” do século XXI, indignado, justamente, com a corrupção parlamentar e o capitalismo em geral. A recusa da táctica parlamentar e das alianças não é leninismo e revela não distinguir entre a linha política dirigida aos quadros politizados e a linha polí­tica dirigida às grandes massas que implica acordos com o PCP, BE, ida às urnas, aplicação de um programa político e eco­nómico de medidas intermédias (exemplo: saída de Por­tugal da UE, nacionalizações na indústria e na banca, econo­mia mista). Ora a revolução é feita por milhões de pessoas “incultas”, não marxistas.

 

TROTSKISMO, CENTRISMO SOB O OPORTUNISMO DE “ESQUERDA”

 

Em matéria de estratégia política internacional, a PO coin­cide com o Bloco de Esquerda, é tão europeísta como este, subalterniza claramente a questão da independência nacional. Francisco Rodrigues escreveu:

 

“As exortações ‘patrióticas’ do PCP não fazem sen­tido. Entramos nesta luta, não em nome de valores na­cionalistas burgueses, mas em nome do internacio­nalismo, não voltados para o passado, mas olhando o futuro. (...) Em Portugal, a época histórica da nação burguesa está agora a encerrar-se . Só a pequena bur­guesia pode ainda alimentar sonhos de renascimento do seu espaço nacional.”2

 

Esta é uma posição trotskista, à direita da posição do PCP. Este sustenta correctamente, de acordo com a teoria de Lenine do socialismo num só país, a saída de Portugal da União Europeia. PCP, partido marxista-leninista, ao menos nesta matéria. Há dúvidas?

 

No mesmo sentido de FMR, o tão badalado Tom Tho­mas, economista emblemático desta corrente oportunista de esquerda que pretende “fazer renascer o comunismo re­volucionário mundial”, sem ziguezagues nem compro­missos temporários, escreve:

 

“O que é necessário não é reclamar ao Estado capita­lista mais proteccionismo, mais nacionalizações, mais crescimento, mais trabalho, mas pelo contrário, apoi­ando-nos no aspecto positivo que representa a pro­dutividade elevada, exigir para cada um menos traba­lho alienante, repulsivo, através da partilha entre todos desse trabalho e da correspondente partilha das riquezas que as máquinas permitem produzir com abundância.”3.

 

Mais uma vez o oportunismo de “esquerda” brota no mar confuso das teses de Thomas. As nacionalizações de lar­gos sectores da economia são um objectivo imediato da luta da classe operária e pô-lo de parte, como preconiza Tho­mas, constitui maximalismo estéril, incapacidade de criar uma plataforma proletário/pequeno-burguesa sólida, im­possibilidade de atrair os sectores da pequena e média bur­guesia que poderão apoiar essas nacionalizações e o protec­cionismo, e que têm de ser ganhos na actual etapa proletário--popular antimultinacionais e antifederalismo europeísta. O reerguer das barreiras alfandegárias é igualmente um objectivo imediato do proletariado para travar a precarização crescente do emprego, as deslocalizações, a intensificação da exploração, o domínio absoluto das multinacionais sem rosto que torna impossível a revolução proletária.

 

O patriotismo não é incompatível com o internacionalis­mo, ao contrário do que sugerem Francisco Rodrigues e Tom Thomas. Aliás, a única classe capaz de defender a inde­pendência nacional, valor hoje mais que nunca revolucio­nário, porque permite combater a globalização e desligar da corrente desta o elo mais fraco (isto é, este ou aquele país em que o nacionalismo de esquerda assuma o poder), é o proletariado. A globalização é má, no essencial, e a estra­tégia a opor-lhe é a revolução anticapitalista no quadro na­cional, o que a PO não faz, em sintonia com o trotskismo e o internacionalismo capitalista da grande burguesia. Em Portugal, só o PCP, à esquerda, representando a classe operá­ria e sectores das classes médias, e o PNR, à direita, represen­tando fragmentos da burguesia nacional conservadora e fascista, defendem o conceito de nação, a resistência estra­tégica às multinacionais. Do mesmo modo que na décadas de 40-60, Álvaro Cunhal e o PCP, à esquerda, e Salazar e a UN, à direita, se opuseram, de diferentes modos, à domina­ção imperialista em Portugal, Cunhal de forma muito mais firme e com conteúdo proletário, Salazar vendendo o país desde 1961. Não escolhendo, em cada caso concreto, entre o bloco burguês de centro e direita europeísta (PS, PSD. CDS) e o bloco das esquerdas (PCP, BE), a PO rompe a uni­dade instintiva dos partidos operários e pratica de facto uma política centrista, disfarçada com fraseologia de ultra-esquer­da. Não é senão a extrema-esquerda do regime capitalista.

 

Lenine afirmou, citando a ultra-esquerda alemã:

 

“É surpreendente que, com semelhantes concepções [“Rejeitar da forma mais decidida qualquer compro­misso com os outros partidos… qualquer politica de manobra e conciliação”], essas esquerdas não con­denem decisivamente o bolchevismo! Não é possível que os esquerdas alemães ignorem que toda a história do bolchevismo, antes e depois da Revolução de Ou­tubro, está cheia de casos de manobra, de conciliação e de compromissos com outros partidos, incluindo os partidos burgueses!”4

 

Francisco Rodrigues que, a meu ver, subestima claramen­te a força do Estado burguês, escreveu, no artigo referido: “Apoiando (e contendo simultaneamente) as lutas populares, o gonçalvismo foi uma tradução imperfeita e transitória do caudal do movimento de massas, não o seu criador”.

 

Eis uma tese neoanarquistaemanacionista” errónea da relação luta de massas e poder de Estado, que apaga este se­gundo pólo. O gonçalvismo como aparelho de poder teve autonomia, personalidade própria (um misto PCP-MES), não foi uma simples emanação do movimento de massas. Resultou deste e simultaneamente foi co-criador deste.

 

Ter revolucionários no cargo de ministros ou de primeiro mi­nistro, de chefe das Forças Armadas, deputados, presiden­tes de câmara etc., no caso de crise revolucionária, como em 1974-1975 em Portugal ou na Espanha de 1936-1939, foi absolutamente vital para a classe operária revolucionária. O Estado toma-se por fora e por dentro. Os revolucionários devem apoiar a ala esquerda do regime, “como a corda sus­tenta o enforcado” (Lenine), fazê-la eliminar a direita do re­gime e assim abrir campo ao triunfo da classe operária. Isto não é um qualquer reformismo. É reformismo revo­lucionário. Sem esta táctica, nenhuma revolução triunfa.

 

 

M.Faria

 

1 “A doença infantil do ‘esquerdismo’ no comunismo”,  p. 327, V. I. Lenine, Obras Escolhidas, 3° Tomo, Edições Avante, Lisboa.

2 “Ibéria”, PO 107.

3 Tom Thomas, A crise crónica ou o estádio senil do capitalismo, na PO 110,   p. 26.

4 A doença infantil do “esquerdismo” no comunismo, Ibid., p. 314.

 

VOLTAR