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Ponto de
Vista Centrismo sob capa “esquerdista” No seu artigo “Aprender a lidar
com os reformistas” no n° 110 da PO,
Escreve F.M.R. a propósito de eu sublinhar que a abstenção preconizada pela PO nas eleições presidenciais de 1986, 1991, 1996, 2001, 2006 e nas legislativas faz o jogo da direita: “… não me parece que se possam considerar de vanguarda as tais dezenas de milhares de operários que votam no PCP e no BE. Constituem uma massa popular derrotada e em busca de protecção, que só pela intervenção de uma força exterior poderá deslocar-se de facto para posições de vanguarda”. Antes de mais, façamos um
reparo à linguagem tonitroante e falaciosa de
LENINISMO: FORTALECER, DE MOMENTO, A ESQUERDA DO REGIME A respeito da Inglaterra em 1920, onde ainda não existia partido comunista, Lenine advogou que os comunistas ingleses convidassem os operários a votar nos socialistas Henderson e Snowden contra o liberal Lloyd George, sabendo, no entanto, que estavam fortalecer, momentaneamente, a ala esquerda do regime capitalista: “Agora é muitas vezes difícil aos comunistas ingleses mesmo chegarem à massa, mesmo fazerem-se ouvir. Mas se eu me apresento como comunista e declaro que convido a votar por Henderson contra Lloyd George, certamente que me escutarão. E poderei explicar de modo popular não só porque razão os Sovietes são melhores do que o parlamento e a ditadura do proletariado melhor do que a ditadura de Churchill (encoberta com o rótulo de “democracia” burguesa), mas também que quereria sustentar Henderson com o meu voto como a corda sustenta o enforcado; que a aproximação com os Henderson para um governo formado por eles provará igualmente que tenho razão, atrairá igualmente as massas para o meu lado e acelerará igualmente a morte política dos Henderson e dos Snowden, tal como sucedeu com os seus correligionários na Rússia e na Alemanha.” 1 Lenine não tinha receio que os
comunistas ingleses, ainda não organizados em partido, (numa “situação
caótica”...) se convertessem em satélites dos socialistas. Não temia os compromissos
eleitorais progressistas da vanguarda proletária com a pequena e mesmo a
média burguesia inglesas. Exactamente o oposto do que teoriza
“Atribuir aos comunistas, nesta situação caótica, capacidade para tirar proveito de manobras eleitorais é sonhar acordado. Se forças de esquerda, sem programa, sem intervenção política, sem implantação, apelarem ao voto no PCP e no BE, tornar-se-ão, por muito que não o queiram, simples satélites desses partidos. A ânsia de inverter a relação de forças pelo recurso ao apoio aos reformistas, sem se dispor de forças próprias, conduz em linha recta à capitulação perante o reformismo”. Esta passagem manifesta, além de um explícito antileninismo, e do receio de a PO ser engolida pelo PCP e pelo BE, uma confissão de revolucionarismo incipiente: então os comunistas (leia-se: militantes da PO) não têm programa? É uma confissão de praticismo, de espontaneísmo
cego – o touro que marra às cegas para derrubar as barreiras do sistema. É
uma confissão de que a PO é um
partido de causas parcelares: apoia este ou aquele confronto de rua de okupas ou de operários com a polícia, perde-se nos
detalhes que incorporam “violência revolucionária” – sempre a mesma a ilusão
de a insurreição armada estar à porta, uma inclinação inata que
TROTSKISMO, CENTRISMO SOB O OPORTUNISMO DE “ESQUERDA” Em matéria de estratégia
política internacional, a PO coincide
com o Bloco de Esquerda, é tão europeísta como este, subalterniza claramente
a questão da independência nacional.
“As exortações ‘patrióticas’ do PCP não fazem sentido. Entramos nesta luta, não em nome de valores nacionalistas burgueses, mas em nome do internacionalismo, não voltados para o passado, mas olhando o futuro. (...) Em Portugal, a época histórica da nação burguesa está agora a encerrar-se . Só a pequena burguesia pode ainda alimentar sonhos de renascimento do seu espaço nacional.”2 Esta é uma posição trotskista, à direita da posição do PCP. Este sustenta correctamente, de acordo com a teoria de Lenine do socialismo num só país, a saída de Portugal da União Europeia. PCP, partido marxista-leninista, ao menos nesta matéria. Há dúvidas? No mesmo sentido de FMR, o tão badalado Tom Thomas, economista emblemático desta corrente oportunista de esquerda que pretende “fazer renascer o comunismo revolucionário mundial”, sem ziguezagues nem compromissos temporários, escreve: “O que é necessário não é reclamar ao Estado capitalista mais proteccionismo, mais nacionalizações, mais crescimento, mais trabalho, mas pelo contrário, apoiando-nos no aspecto positivo que representa a produtividade elevada, exigir para cada um menos trabalho alienante, repulsivo, através da partilha entre todos desse trabalho e da correspondente partilha das riquezas que as máquinas permitem produzir com abundância.”3. Mais uma vez o oportunismo de “esquerda” brota no mar confuso das teses de Thomas. As nacionalizações de largos sectores da economia são um objectivo imediato da luta da classe operária e pô-lo de parte, como preconiza Thomas, constitui maximalismo estéril, incapacidade de criar uma plataforma proletário/pequeno-burguesa sólida, impossibilidade de atrair os sectores da pequena e média burguesia que poderão apoiar essas nacionalizações e o proteccionismo, e que têm de ser ganhos na actual etapa proletário--popular antimultinacionais e antifederalismo europeísta. O reerguer das barreiras alfandegárias é igualmente um objectivo imediato do proletariado para travar a precarização crescente do emprego, as deslocalizações, a intensificação da exploração, o domínio absoluto das multinacionais sem rosto que torna impossível a revolução proletária. O patriotismo não é
incompatível com o internacionalismo, ao contrário do que sugerem
Lenine afirmou, citando a ultra-esquerda alemã: “É surpreendente que, com semelhantes concepções [“Rejeitar da forma mais decidida qualquer compromisso com os outros partidos… qualquer politica de manobra e conciliação”], essas esquerdas não condenem decisivamente o bolchevismo! Não é possível que os esquerdas alemães ignorem que toda a história do bolchevismo, antes e depois da Revolução de Outubro, está cheia de casos de manobra, de conciliação e de compromissos com outros partidos, incluindo os partidos burgueses!”4
Eis uma tese neoanarquista “emanacionista” errónea da relação luta de massas e poder de Estado, que apaga este segundo pólo. O gonçalvismo como aparelho de poder teve autonomia, personalidade própria (um misto PCP-MES), não foi uma simples emanação do movimento de massas. Resultou deste e simultaneamente foi co-criador deste. Ter revolucionários no cargo de ministros ou de primeiro ministro, de chefe das Forças Armadas, deputados, presidentes de câmara etc., no caso de crise revolucionária, como em 1974-1975 em Portugal ou na Espanha de 1936-1939, foi absolutamente vital para a classe operária revolucionária. O Estado toma-se por fora e por dentro. Os revolucionários devem apoiar a ala esquerda do regime, “como a corda sustenta o enforcado” (Lenine), fazê-la eliminar a direita do regime e assim abrir campo ao triunfo da classe operária. Isto não é um qualquer reformismo. É reformismo revolucionário. Sem esta táctica, nenhuma revolução triunfa. M.Faria 1
“A doença infantil do ‘esquerdismo’ no comunismo”, p. 327, V. I.
Lenine, Obras Escolhidas, 3° Tomo,
Edições Avante, Lisboa. 2
“Ibéria”, PO n°
107. 3
Tom Thomas, A
crise crónica ou o estádio senil do capitalismo, na PO n° 110, p. 26. |