Ponto de Vista

 

Feminismo da diferença: retrocesso à vista

 

O fundamental é que não se perca de vista o objectivo pelo qual deve lutar

o movimento feminista – a emancipação da mulher, a plena igualdade

entre os seres humanos e o fim de todos os tipos de opressão,

dominação e exploração

 

Com investimentos cada vez menores nas áreas sociais, sobretudo no que toca a saúde e educação – política condi­zente com a concepção neoliberal de Estado – muitas for­mulações do feminismo actual permitem o uso e o abuso das noções de diferença, que são convenientes ao Estado, mas prejudiciais ao movimento feminista.

 

Algumas teorias, em parte incorporadas pelo movimento feminista, entendem que as diferenças entre homens e mu­lheres não correspondem a construções culturais, nem ex­pressam apenas a diversidade biológica, mas uma “ordem na­tural das coisas”.  Daí a assumir a real existência de uma moral própria das mulheres é um curto caminho. A tentação de conferir às mulheres e aos homens uma identidade essen­cial, comum a todos os indivíduos, não é novidade. Já em 1918 era possível encontrarem-se, em textos de Alexandra Kollontai, referências das quais se depreende que ela relacio­nava, de certa forma, a aproximação das mulheres “aos templos da ciência e da arte” como um indicativo de que estas estariam passando por transformações de modo a adqui­rir a firmeza masculina.

 

No entanto, hoje, as teorizações acerca da “essência femi­nina” adquiriram contornos mais fortes. A moral considera­da feminina estaria associada ao âmbito privado, com ênfase na abordagem contextual e colectiva, conferindo relevância às emoções e relacionamentos: é a “ética do cuidado”. A ela estaria contraposta a “ética da justiça” tipicamente mas­culina, relacionada ao âmbito público, à razão, aos direitos individuais e à abstracção.

 

A partir do momento em que as próprias mulheres estão convencidas da sua “aptidão natural” para o cuidado, torna--se fácil para o Estado transferir-lhes atribuições como o cui­dado com enfermos e idosos – para os quais não há lei­tos em hospitais ou qualquer tipo de assistência oficial; ou ainda, a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso na vida escolar das crianças, diante da precarização incontes­tável do sistema educacional.

 

Modelos ideológicos

 

A acumulação de tarefas que recai sobre as mulheres tor­na cada vez mais difícil o equilíbrio entre casa e trabalho – sobretudo no que respeita aos cuidados com os filhos. Esta pressão leva muitas mulheres a desistirem de trabalhar a tempo inteiro, abrindo mão, na prática, da possibilidade real de uma carreira profissional.  Não se trata aqui de negar a complexidade que envolve a criação, educação e cuidado com uma criança, ou de negar-se a necessidade de cuidados com pessoas idosas e/ou doentes. O problema está em tratar tais temas como se fossem “questões femininas”, como se, fren­te à ausência de uma solução colectiva, apenas às mu­lheres coubesse a responsabilidade da realização dessas tare­fas. É neste sentido que naturalizar a aptidão para o cuidado co­loca em risco o projecto de emancipação feminina.

 

Ao aceitar que as mulheres detêm a aptidão e a sensibili­dade necessárias para tais tarefas, se impõem um dilema: ou as mulheres têm de dedicar-se às suas aptidões e retorna­rem ao estrito papel de mães, esposas e donas de casa ou então têm de submeter-se a múltiplas jornadas de trabalho para darem conta de tantos afazeres.

 

A situação de insegurança e sobrecarga das mulheres vai ao encontro dos interesses do capital privado, na medida em que o trabalho a meio tempo é uma das medidas imple­mentadas no processo de precarização das relações de traba­lho. Ao Estado interessa a disponibilidade das mulheres para assumirem atribuições que seriam da sua competência. Assim, sem nenhum tipo de custo ao erário público, estabe­lecem-se redes de serviços paralelos de saúde e educação.

 

Esta situação desdobra-se em consequências nefastas pa­ra a vida das mulheres que vêem a sua existência resumida ao trabalho, além de, com muita freqüência, terem de lidar com a sensação de culpa e frustração por não estarem “dan­do conta” daquilo que lhes caberia. Contribui para esta situa­ção a propaganda ideológica do papel da mulher levada a cabo pelo Estado.

 

São muitas as pesquisas, levantamentos e estatísticas, mui­tos dos quais oriundos de organismos governamentais, para demonstrar como a presença da mãe contribui para a vida dos filhos: o rendimento escolar é superior, o equilíbrio emo­cional é maior, o índice de envolvimento com drogas e outros problemas é menor.  A Igreja não se furta de fazer a apo­logia do papel que a mulher desempenha no lar.  Em re­cente visita ao Brasil o papa Bento XVI afirmou que o papel da mãe é fundamental para o futuro da humanidade e q­ue não se devem medir esforços para gerar as condições necessárias para que as mulheres possam dedicar-se plena­mente à família.

 

Nas revistas ditas “femininas” não faltam matérias rela­tando experiências felizes de mulheres (todas de camada mé­dia ou alta) que deixaram de trabalhar para se dedicarem à família “até que os filhos estejam crescidos”. É interessante que nestas reportagens o retorno ao lar é sempre o resultado de uma opção. A estas mulheres, mesmo sendo economica­mente privilegiadas, não é perguntado se não teriam mantido as suas profissões, apesar da maternidade, se não tivessem que assumir tantas atribuições. Também não é explicitado que é condição fundamental para tal opção a existência de alguém que provenha o sustento desta mulher. Cabe pergun­tar: apesar de ser apresentado nos media como uma tendên­cia, que percentagem da população feminina poderá este mo­vimento atingir?

 

Em tempos de comunicação de massas, os media, sobre­tudo os media eletrônicos, produzem efeitos profundos so­bre a vida humana. A televisão não representa o mundo, mas serve cada vez mais para definir como é o mundo no qual vivemos. E, embora o simulacro da hiper-realidade tele­visiva não assente necessariamente na realidade concreta, é esta hiper-realidade que é captada e absorvida como real.

 

A televisão está recheada de situações em que o simula­cro da mulher feliz e realizada é o da dona-de-casa, da mãe e esposa. Não raro em novelas e propagandas se difunde a ideia, ainda que subliminarmente, que a integralidade da mu­lher se relaciona com o casamento e a maternidade. Re­força-se a todo o momento a preponderância do papel da mãe na vida dos filhos e é sempre a mulher que se ocupa de cuidados com idosos e doentes. Os modelos tradicionais dos papéis sexuais são reafirmados constantemente e sur­gem na ordem natural das coisas, como descrito pelas teorias que defendem a existência de uma essência feminina. Se a vida televisiva é percebida como real, parece-me óbvio que as mulheres assumam de maneira cada vez mais arraigada estes papéis, a tal ponto de elas mesmas se tornarem os su­jeitos que confirmam a teoria forjada.

 

Diante do bombardeio ideológico massificador e culpa­bilizante e frente à exaustão das múltiplas jornadas, torna--se quase impossível que a mulher não passe a ansiar por um retorno ao lar.  Para a grande maioria das mulheres que, de­vido à impossibilidade material, não podem sequer pensar em desistir do trabalho assalariado em prol do bem-estar dos filhos e familiares, resta além do cansaço, a culpa por não estar desempenhando integralmente as suas funções.

 

Críticas ao feminismo da diferença

 

Mencionarei aqui apenas duas entre as muitas críticas à tendência para exaltar as diferenças entre homens e mulhe­res, embora abordem a questão por ângulos diferentes:  en­quanto uma identifica muitas argumentações do feminismo da diferença com as teorias nazistas, a outra alerta para os riscos de retrocesso que estas teorias representam no cami­nho de emancipação das mulheres.

 

 A associação entre este feminismo e o nazismo é feita, nas pa­lavras de João Bernardo, a partir da constatação de que “a atribuição a uma raiz biológica às manifestações cul­turais e a noção de que dadas manifestações culturais indi­cam uma dada condição biológica – feminismo que hoje do­mina os meios académicos e prevalece nos órgãos de in­formação, propenso às abordagens ‘de género’, para empregar a termi­nologia corrente, actualizou um modelo de pensamento que caracteriza o racismo germânico, no­mea­damente na versão hitleriana.”1

 

De acordo com o autor, as perspectivas “de género” es­­forçam-se por acentuar a divisão entre a esfera masculina e feminina, e assim colocam-se no extremo oposto do velho feminismo, que procurara emancipar as mulheres anulando as diferenças de comportamento entre os sexos, “aquele fe­­minismo que se singularizou pelo desejo de superar as di­ferenças convencionais entre os sexos e de fundi-los am­bos na formação de um género verdadeiramente hu­mano”.2

 

Já o novo feminismo está em local diametralmente opos­to a este e parece contentar-se a alcançar o que é tido como “politicamente correcto”. Para João Bernardo o “politica­mente correcto” não passa da linguagem utilizada pelos der­rotados. No caso, uma vez que as mulheres não conseguiram alcançar a igualdade com os homens, busca-se estabelecer novas modalidades de igualdade formal.  Uma destas formas seria assumir a tradicional divisão entre as esferas masculina e feminina, passando a atribuir a esta última uma conotação positiva no lugar da valorização negativa anterior e ao mesmo tempo classificar como negativo o que se relaciona à esfera masculina. Esta inversão hierárquica que atribui virtudes ao feminino e vícios ao masculino apenas reforça a crença na indiscutível existência destes termos. Muda a linguagem e os adjectivos, enquanto a realidade social permanece inalterada.3 “Tal malabarismo busca apagar a distinção entre o ideológico e o político. A divisão entre a esfera social masculina e a esfera social feminina resulta de uma criação cultural de séculos sendo inculcados às mu­lheres comportamentos, maneiras e opiniões diferentes dos inculcados aos homens. O actual feminismo, em vez de pre­­tender eliminar a separação entre os sexos, pretende con­sa­grá-la baseando a sua interpretação do mundo numa divi­são de caráter biológico a partir do qual constrói um comple­xo edi­fício de distinções culturais. No entanto também actua no sentido inverso, ou seja, atribui a um dado tipo de ideias, ati­tudes e comportamentos uma conotação biológica. Passa--se da biologia para a cultura e da cultura para a biologia, qua­­se igualando o conceito de género ao conceito de raça. É esta circularidade sem critério – que as teorias de género par­tilham com o nacional-socialismo – que conferiram uma psicologia própria aos povos considerados biologicamente.4

 

Elisabeth Badinter é outra crítica feroz do feminismo da diferença. Segundo ela, após as grandes vitórias do movimento feminista nas décadas de 1970-80 todas as esperanças eram permitidas... Afinal a partir do momento em que as mulheres ganhavam o seu sustento já não estavam obrigadas a ficar com um homem caso não o quisessem; a pí­lula permitia o controle da concepção: um homem só se­ria pai se a mulher permitisse. O patriarcado estava nos seus últimos dias. A imagem da mulher tradicional ia-se apa­gando ao mesmo tempo em que outra nascia: uma mu­lher altiva e segura de si. Após anos de tirania a mulher en­cer­rava a sua participação secundária na vida. Tudo o que antes pertencia apenas aos homens agora também per­tencia às mulheres. O mundo podia ser compartilhado entre ambos. Tais esperanças não se confirmaram e com isso um outro tipo de feminismo emergiu. Badinter denomina-o “fe­minismo norte-americano”.

 

Esta abordagem do feminismo enfatiza a mulher en­quanto tal, ou seja, enquanto mulher, como se fosse possível atribuir um rol de características a alguém apenas a partir do conhecimento do seu sexo biológico. A mulher é identi­ficada com o puro, o natural, a maternidade, o amor. Por outro lado também figura como um ser frágil à mercê da vio­lência e da dominação masculina.  Tais afirmações im­põem um dilema teórico a este novo feminismo: como rede­finir a natureza feminina sem recair nos velhos clichés? Co­mo falar de “natureza” sem colocar a liberdade em perigo? Como sustentar o dualismo dos sexos sem reconstruir a prisão dos géneros sexuais?5

 

Este retorno ao antes tão combatido essencialismo traz consigo outros riscos: ao mesmo tempo que combate a hie­rarquia da dominação masculina pelo poder cria uma no­va hierarquia, a hierarquia moral. O sexo dominador é identificado com o mal, e o oprimido com o bem. Frente a este maniqueísmo surge a certeza de que as mulheres se pre­o­cupam mais com a vida e com a liberdade e o ideal ma­terno reaparece para justificar, ao mesmo tempo, a supe­rioridade moral das mulheres em relação aos homens e suas prerrogativas. Como resultado desta linha de argumentação chega-se à imagem da mulher como vítima da sociedade masculina ao mesmo tempo que encarna o bravo soldado que luta para consertar os estragos causados pelo homem.6

 

Não estará este feminismo a cometer o sexismo? Será possível que todos os males do mundo, toda a destruição, toda a violência sejam privilégios masculinos? Virá a eman­cipação feminina da condenação do sexo masculino? Não há dúvida que para muitos e muitas esta versão dos factos é muito conveniente.

 

Conclusão

 

Pode-se depreender que o foco central que envolve o feminismo não se resume à escolha de um rótulo, seja ele o da igualdade, seja o da diferença.

 

Apesar de muitas feministas argumentarem que, se as mu­lheres não forem consideradas como uma identidade coerente, não será possível articular um movimento político feminista, no qual as mulheres se unifiquem enquanto mu­lheres e a partir disto procurem atingir objectivos feministas, tendo a concordar com aquelas que defendem que a des­construção das identidades essenciais deve ser vista como con­dição necessária para uma compreensão adequada da diver­sidade de relações sociais que as mulheres estabelecem, às quais se deve aplicar o princípio da plena igualdade.

 

Neste sentido é preciso considerar que um único indiví­duo, ou seja, a mesma mulher, pode ser portadora desta mul­tiplicidade e ser dominante numa relação e ao mesmo tempo subordinada em outra, uma vez que não possui uma identidade estática. Embora não seja uma tarefa fácil, é preciso que o movimento feminista procure “articular” esta multiplicidade de identidades, de modo a estabelecer pontos de identificação colectiva que transcendam a ele próprio bus­cando a unificação com outras lutas emancipatórias.

 

O grande desafio a ser enfrentado é não perder de vista as acções colectivas e a construção de um projecto global de transformação da sociedade, uma vez que a verdadeira eman­cipação da mulher – e em certa medida também do ho­mem – só será possível a partir da eliminação do estabele­cimento de papéis relacionados ao sexo dos seres humanos, bem como da hierarquização entre os diferentes tipos de apti­dões ou actividades desempenhadas pelas pessoas.

 

O fundamental é que não se perca de vista o objectivo pelo qual deve lutar o movimento feminista – a emancipação da mulher, a plena igualdade entre os seres humanos e o fim de todos os tipos de opressão, dominação e exploração.  Mais de um caminho pode ser trilhado para que se avance em direcção a tal objectivo, mas é preciso ter claro que tanto a prática como a teoria terão de encontrar um ponto de con­fluência que permita às mulheres avançarem política e orga­nizativamente, vez que a caminhada fragmentada per­mite que se alcance resultados restritos à academia e às políti­cas públicas. Diante de cada uma das alternativas que se apre­­sentam cabe a avaliação se de facto significam um avan­ço ou, pelo contrário, significam um desvio na medida em que sejam apenas conquistas pontuais, cujo fim se encerra nelas próprias. Neste caso, a perda costuma ser bem maior do que eventuais ganhos: o movimento contestatário tende a migrar para o terreno da conformação e, em regra, tais ga­nhos tendem a beneficiar apenas pequenas parcelas de mulheres, o que favorece a maiores fracturas dentro do pró­prio feminismo.

 

 

Elisa de Souza Lima - Especialista em  sociologia política, residente em Florianópolis.

 

1 Bernardo, João. 2006. Publicado em Novos Rumos, ano XXI, nº 45. “Considerações inoportunas e politicamente incorretas acerca de uma ques­tão de nossos dias”.

2 Id., ibid.

3 Id., ibid.

4 Id., ibid.

5 Badinter, Elisabeth. 2005. Rumo Equivocado: o feminismo e alguns des­tinos,   pp. 43-45

6 Id., ibid, pp. 46-59

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