Ponto de Vista

 

O Che vive

 

 

Ernesto Guevara, jovem inquieto, viajou extensamente por toda a América do Sul e, médico recém-formado, come­çou a manifestar preocupação pela miséria e exploração dos mais pobres, deixando já adivinhar o seu futuro empe­nhamento na subversão revolucionária.

 

Iniciou-se na luta política primeiro na Guatemala e em se­guida no México, onde foi influenciado pelas ideias mar­xistas, através da sua primeira mulher, a peruana Hilda Ga­dea, e outros exilados políticos. Depois de conhecer Fidel Cas­tro e os rebeldes cubanos, aderiu ao plano de insurreição e partiu com eles para Cuba (1951-1959). Argentino de ori­gem, sentia-se de facto latino-americano e fez-se cubano por adopção. Mergulhou a fundo, sem hesitar, na luta arma­da dos revolucionários da Sierra Maestra pela conquista do poder. Durante a guerrilha prestou tais provas de coragem e espírito combatente que foi nomeado comandante e mem­bro do Comité Central. Teve um papel importante nas pri­meiras tarefas do novo regime, que se reclamava do mar­xismo-leninismo.

 

Evolução de um pensamento

 

Na primeira etapa cubana da sua vida, Che Guevara acre­ditava ainda sem reservas na capacidade de o Partido Comu­nista Cubano conduzir a revolução, não tendo consciência da distância que separava esse partido das tarefas de uma au­têntica revolução proletária, socialista. Dizia então: “Não se pode estar com a Revolução e contra o Partido Comunista Cubano. A Revolução e o Partido Comunista avançam jun­tos.” Nunca se eximindo a qualquer missão, foi chefe das for­ças armadas, presidente do banco nacional de Cuba, res­ponsável pela indústria, planeamento e reforma agrária. Con­duziu também as necessárias medidas de repressão aos con­tra-revolucionários e representou Cuba nas relações in­ternacionais (1959-1965).

 

Entretanto, as suas concepções sofreram alterações ao lon­go do tempo. Em 1960, os Estados Unidos decretaram o embargo comercial a Cuba e a crise dos mísseis soviéticos mar­cou a primeira grande discordância do Che com a linha que acabou por ser seguida pelo executivo cubano. Conside­rou uma traição a retirada pelo Kremlin da base de mísseis em Cuba e começou a fazer comentários favoráveis sobre a revolução chinesa.

 

Ao voltar de uma viagem a Moscovo em 1964, não com­pareceu ao Congresso dos Partidos Comunistas da América Latina em Havana. Passando a dedicar-se mais às tarefas inter­nacionais, estabeleceu contactos com os dirigentes pro­gressistas africanos e fez viagens a diferentes países do con­tinente. As suas críticas ao sistema soviético têm sido postas em surdina por Cuba, mas são uma realidade documentada nos seus escritos. Elas traduzem o crescente mal-estar de Che Guevara em relação aos dirigentes do país que na época era tido por muitos como modelo do socialismo mas cuja conciliação com o imperialismo norte-americano começava a causar alarme entre os revolucionários e os povos em luta. A sua desilusão foi-se tornando cada vez mais evidente. Enquanto Fidel tomou a defesa da União Soviética na ru­ptura sino-soviética, louvando a política de “coexistência pací­fica”, o Che postulava que só a guerra de guerrilhas po­deria enfrentar o imperialismo na América Latina. Enquanto o objectivo pragmático de Fidel era consolidar a economia cubana e garantir a sua sobrevivência política – e para isso precisava do apoio da URSS – o Che estava mais inte­ressado em propagar a revolução socialista e fazia apelos em favor da luta armada dos povos oprimidos.

 

Em Dezembro de 1964, quando foi a Nova Iorque para dis­cursar perante a Assembleia Geral da ONU, Che Guevara encontrou-se com Malcolm X, que lhe falou do seu projecto de criar uma brigada de voluntários negros afro-americanos para ajudar os guerrilheiros congoleses. Meses depois, Mal­colm X foi assassinado, mas a ideia não morreu.

 

À medida que a natureza conservadora e as necessidades do modelo cubano de pseudo-socialismo chocavam com o apelo de Guevara a uma luta intransigente contra o imperia­lismo, a sua honestidade intelectual ia-o levando numa rota de colisão dentro do regime cubano, ideologicamente subor­dinado ao “irmão mais velho” e mostrando sinais evidentes de burocratismo. Acusado de ser ora trotskista, ora maoísta, considerou que o seu papel em Cuba estava esgotado e no começo de 1965 decidiu partir.

 

“Renuncio formalmente aos meus cargos na Direcção do Partido, ao meu posto de ministro, ao meu grau de co­mandante, à minha condição de cubano”, escreveu numa car­ta secreta que entregou a Fidel e que este deveria tornar pública se ele morresse. E acrescentava: “Outras terras do mun­do reclamam a ajuda dos meus modestos esforços. [...] Dei­xo o povo que me adoptou como a um filho; uma parte do meu coração está destroçada. Nos novos campos de ba­ta­lha manterei […] o espírito revolucionário do meu povo, a sensação de cumprir o mais sagrado dos deveres: lutar con­tra o imperialismo onde ele se encontre. […] Repito que descarrego Cuba de toda a responsabilidade, excepto a inspirada pelo seu exemplo”.

 

Logo a seguir, no célebre Discurso de Argel, em Feverei­ro de 1965, criticou abertamente a política externa da URSS pela primeira vez em público. “Cremos que é com este espí­rito que se deve enfrentar a responsabilidade de ajudar os países dependentes e que não se chame comércio de vanta­gem recíproca aquele que é baseado nos preços que a lei do valor e as relações internacionais fundadas numa troca desi­gual, fruto da lei do valor, impõem aos países atrasados. Como pode significar benefício mútuo vender a preços de mer­cado mundial as matérias-primas que custam suor e so­frimento inauditos aos países atrasados e comprar a preços de mercado mundial as máquinas produzidas nas grandes fá­bricas automatizadas da actualidade? Se estas são as rela­ções, os países socialistas são de certo modo cúmplices da ex­ploração imperialista. Pode-se argumentar que o montante das trocas com os países subdesenvolvidos constitui uma parte insignificante do comércio externo desses países. É uma grande verdade, mas não elimina o carácter imoral da tro­ca. Os países socialistas têm o dever moral de liquidar a sua cumplicidade tácita com os países exploradores de Oci­dente. (...)

 

“Não pode existir socialismo se nas consciências não se operar uma mudança que provoque uma nova atitude frater­na para com a humanidade, tanto de índole individual, na so­ciedade em que se constrói ou está construído o socialis­mo, como de índole mundial em relação a todos os povos que sofrem a opressão imperialista.”

 

Os soviéticos acusaram o Che de “desvio ideológico” e fize­ram-no saber a Fidel Castro. Este pediu-lhe que regres­sasse imediatamente a Cuba para acabar de uma vez por to­das com a duplicidade do discurso político cubano. Mas Guevara, ainda em Argel, viajou para o Cairo e Pequim, on­de esperava demonstrar com um acordo comercial “revo­lucionário e desinteressado” com a China como tinha razão nas suas acusações contra a URSS. Mao recebeu-o muito bem mas não se comprometeu com nada.

 

Logo a seguir, sempre obcecado com a solidariedade com os povos do mundo, Guevara partiu para o Congo e reto­mou a luta armada ao lado dos rebeldes que procuravam derrubar o regime de Tshombé entre Abril e Novembro de 1965. Entretanto, em Outubro de 1965, Fidel Castro tornara pública a carta de despedida que Guevara lhe entregara antes de partir. O Che reagiu dizendo: “Esta carta só devia publi­car-se depois da minha morte. Não é agradável ser enterrado em vida. Intencionalmente ou não, varreram-me da cena inter­nacional”.

 

Desiludido com as incoerências dos chefes da insurreição congolesa (“Esta é a história de um fracasso. (...) mais exacta­mente, a de uma decomposição”), mais uma vez resolveu par­tir. Escreveu nessa altura: “Durante estas últimas horas no Congo, senti-me só como nunca me tinha sentido, nem em Cuba nem em nenhum outro sítio, ao longo da minha vida errante por todo o mundo. Poderia dizer: nunca como hoje, neste momento, senti até que ponto o meu caminho é solitário”.

 

Passou quatro meses em Dar es Salam, na embaixada de Cuba. Obrigado à clandestinidade desde que se tornara pú­blica a sua carta a Fidel, passou outros quatro meses em Pra­ga antes de voltar a entrar em Cuba, disfarçado e sob ano­nimato. Apesar das reticências dos soviéticos e a instân­cias de Che Guevara e do líder marroquino Mehdi Ben Bar­ka, a V Conferência da Tricontinental foi realizada em Ha­vana em Janeiro de 1966. A sua finalidade principal foi a de incrementar ao máximo os movimentos revolucionários, coordenar a forma de realizá-los e fortalecer o apoio moral e material para os tornar mais efectivos. A caminho da Bolívia e em paradeiro não conhecido, Guevara enviou uma mensagem à Tricontinental, em que assinala: “A América, con­tinente esquecido pelas últimas lutas políticas de liberta­ção, que começa a fazer-se sentir através da Tricontinental, na voz de vanguarda dos seus povos, que é a revolução cu­bana, terá uma tarefa de muito maior relevo: a criação de um, dois, três Vietnames em todo o mundo”.

 

O Che foi para a Bolívia para desencadear a luta armada, apesar de lhe ser negado o apoio do Partido Comunista bo­liviano por se ter recusado a ficar sob as ordens da estru­tura partidária. A aventura boliviana desenrolou-se em con­dições muito piores que as do Congo e muitos retiram da lei­tura do seu Diário da Bolívia a ideia de que se tratou de uma espécie de suicídio consciente. Feito prisioneiro, ferido e assassinado por ordem directa da CIA, morreu como guer­rilheiro em 9 de Outubro de 1967.

 

O marxismo do Che

 

Alguns pontos caracterizam a interpretação singular que Che Guevara fez da sua experiência como revolucionário, conjugada com as suas noções de marxismo:

 

- Humanismo revolucionário – o amor à humanidade opri­mida, o desejo de combater a miséria, a injustiça e a explo­ração do proletariado devem guiar todas as acções do com­batente pela libertação.

 

- A luta armada é à vanguarda que cabe influenciar a mar­cha dos acontecimentos, dentro do que é objectiva­mente pos­sível. A guerrilha, fruto da acção consciente da vanguar­da, é fundamentalmente o motor da mobilização e o gera­dor da consciência revolucionária e do entusiasmo comba­tivo das massas populares. O único modo de obter como resultado uma revolução socialista é a luta armada; e esta deve ser encabeçada pela guerrilha.

 

- O homem novo – a revolução não é só uma transforma­ção das estruturas sociais ou das instituições do regime; é uma transformação profunda e radical das pessoas, das consci­ências e das relações sociais. No partido, esse homem novo é o quadro; ele não é um simples transmissor de palavras de ordem ou de reivindicações, mas um criador que ajudará no desenvolvimento das massas e na infor­mação dos dirigentes.

 

- O internacionalismo – o Che já tinha dito, em Argel: “O de­senvolvimento dos países que se comprometem na via da libertação deve ser pago pelos países socialistas.” É fá­cil de concluir que o internacionalismo guevarista estava mais dirigido para o Terceiro Mundo que para a ideologia comunista ortodoxa de Moscovo. Influenciado pelas ideias maoístas, acreditava que a luta pela independência total dos continentes africano, sul-americano e asiático estava na vanguarda do combate contra o imperialismo.

 

O Che fundiu o marxismo com a sua visão idealizada da revolução como acto de vontade dos revolucionários, inde­pendentemente da estrutura económico-social de cada país. Nunca questionou a natureza real do Estado soviético – como aliás a generalidade das correntes comunistas da época – convencido que estava da simples existência de ví­cios burocráticos, aburguesamento dos dirigentes, despre­zo pelo sofrimento das massas, etc. E assimilava esses facto­res também às limitações da revolução cubana, ao imaginá--la socialista e não nacional-burguesa, como de facto era.

 

Não se apercebia que possivelmente os destinos de Cuba não poderiam ter sido conduzidos de outra maneira, pela própria natureza económico-social do país e não pela origem de classe dos seus dirigentes. De resto, a questão coloca-se hoje mesmo: Estará a revolução cubana em crise por causa de uma condução errada por parte da sua classe dominante, ou o castrismo é o retrato dos limites da própria revolução? A segunda hipótese, sendo a verdadeira, nunca teria ocorrido a Che Guevara. Contudo, talvez se possa relacionar o seu engodo pelo foquismo com a desilusão que lhe terá causado a experiência no PC cubano.

 

Por outro lado, embora a estratégia da guerra de guerri­lhas como foco de insurreição não estivesse necessariamente condenada ao fracasso – como o prova a prolongada resis­tência armada na Colômbia, por exemplo – no caso da Bolí­via não poderia subsistir, por ser fruto de uma implantação exterior e não ter sido gerada e desenvolvida no âmbito da revolta das massas camponesas.

 

O Che, que se baseava na experiência vitoriosa da China, Vietname, etc., em que os campos cercaram as cidades, não viveu o suficiente para compreender que é a necessidade das próprias massas que as leva a criar os instrumentos ade­quados, no processo de uma luta consciente para impor os seus objectivos. Na América Latina as condições sociais eram totalmente diferentes da Ásia e os meios de luta teriam de ser outros. E em África? Aí a luta só podia fazer-se a par­tir dos campos, mas também fracassou, talvez porque não houvesse elementos de uma revolução agrária como na China ou na Rússia, nem massas de milhares de campo­neses desejosos de tomar posse das terras.

 

O foquismo revela uma incompreensão de fundo do Che quanto ao que fez a força dos revolucionários vietnami­tas e chineses: organizavam-se em partidos que se tinham tornado, ao longo de muitos anos, a alma da resistência, estavam profundamente implantados nas massas populares, combinavam várias formas de luta. As improvisações ten­tadas por Guevara no Congo e na Bolívia eram meros “fo­cos” sem raiz de massas, que demoraria muitos anos a cons­truir. Demonstraram que não basta “enxertar” um grupo de revolucionários num país oprimido para a revolução avan­çar. E evidenciam um esquematismo na concepção do Che, resultante de imaturidade política e de um certo ro­mantismo pequeno-burguês.

 

O Che foi um expoente do revolucionarismo nacionalista latino-americano. As suas respostas não eram as que necessi­tava o proletariado europeu, por exemplo. Só que, no maras­mo do reformismo, das capitulações e das traições em que os partidos comunistas europeus tinham afundado o movi­mento, o seu exemplo de combatividade teve um efeito electrizante. Ele era de uma raça diferente dos Thorez, Togli­atti, Cunhal e Brejnev. O foquismo, apesar das suas limita­ções, reavivou a ideia de que as condições objectivas favorá­veis podem ser aceleradas pelos factores subjectivos e que a luta armada é uma etapa obrigatória da conquista do poder pelos revolucionários.

 

Hoje o Che é em parte uma moda que o sistema procura recuperar e tornar inofensivo. Mas isso não apaga o Che vi­sionário anti-imperialista que inspira parte da juventude actual. A forma criadora como analisou as condições da épo­ca, a dedicação sem limites, a tenacidade que imprimiu à sua acção, o espírito internacionalista de que deu provas e a coragem com que enfrentou a ortodoxia dominante fazem dele, quarenta anos após a sua morte, um símbolo de espe­rança e de força moral para todos os que aspiram à revolução dos explorados e oprimidos.

 

 

Ana Barradas -  Intervenção proferida numa sessão pública em Compostela, em 16 de Junho de 2007, no âmbito das Jornadas Independentistas Galegas. Outros oradores foram Maurício Castro, Camilo Nogueira, Michael Löwy, Justo de la Cueva, Domingos Garcia Fernandez e o cônsul de Cuba na Galiza.

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