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Ponto de
Vista Os sovietes em acção Na passagem do 90º aniversário da
Revolução de Outubro, a burguesia fala do “terror vermelho” enquanto o PCP
pinta uma “revolução” bem ordenada. Nem a uns nem aos outros convém falar do
poderoso levantamento dos milhões de
explorados, aqui evocado pelo autor dos Dez dias que abalaram o mundo No coro de insultos e mentiras lançados pela imprensa capitalista contra os sovietes russos, ouve-se o grito estridente de que “Não há governo na Rússia!” É uma pura calúnia. Como podemos assegurar nós que vimos de perto a revolução russa, existe actualmente em Moscovo e em todas as cidades e vilas da Rússia uma forte estrutura política, apoiada pela maioria do povo e que funciona melhor do que qualquer outro governo popular acabado de nascer. Os trabalhadores russos construíram uma organização económica que está evoluindo em direcção a uma verdadeira democracia industrial. O Estado soviético baseia-se nos sovietes (conselhos) de trabalhadores e de camponeses. Estes conselhos, instituição característica da revolução russa, surgiram pela primeira vez em 1905, quando durante a primeira greve geral dos trabalhadores, as fábricas de Petrogrado e as organizações operárias enviaram delegados ao comité central de greve, que recebeu o nome de Conselho de Deputados Operários, convocou a segunda greve geral no Outono de 1905 e durante um breve lapso de tempo foi reconhecido pelo Governo Imperial como interlocutor autorizado da classe trabalhadora revolucionária russa. Com a derrota da revolução de 1905, os membros do Conselho fugiram ou foram deportados para a Sibéria. Mas este tipo de união mostrou-se tão capaz como órgão político que todos os partidos revolucionários compreenderam a sua importância para um levantamento futuro. Por isso, em Março de 1917, quando a Rússia se ergueu numa tempestade de protestos, o czar abdicou e a Duma (o pseudoparlamento czarista) tomou as rédeas do governo, o Conselho de Deputados Operários renasceu. Em poucos dias foi alargado para incluir delegados do exército, passando a chamar-se Soviete de Deputados Operários e Soldados. Como a Duma fosse incapaz, por si só, de exercer o poder, viu-se obrigada a pedir a colaboração dos representantes dos trabalhadores e dos soldados. Assim, o Soviete de Deputados tomou a seu cargo a continuação da revolução contra a traição da burguesia, a coordenação das actividades populares e a manutenção da ordem. O que significou que, a partir desse momento e até Novembro desse ano, passaram a existir dois governos em luta pelo poder: os sovietes, órgão dos trabalhadores, soldados e camponeses, e o Governo Provisório, dominado pela burguesia. Direito de voto As regras para a eleição dos delegados aos sovietes eram de início variáveis. Em certas aldeias os camponeses elegiam um delegado por cada 50 eleitores. Os soldados estabeleceram o número de delegados por cada regimento. Nas grandes cidades, os trabalhadores, para tornar os sovietes eficazes, estabeleceram um delegado por cada 500 eleitores. Nos congressos dos sovietes, estabeleceu-se a proporção de um delegado por cada 25.000 votantes. Até Fevereiro de 1918, todos podiam eleger delegados para os sovietes. Até os burgueses. Por exemplo, durante o Governo Provisório, o soviete de Petrogrado tinha um delegado em representação dos médicos, juristas, professores, etc. Porém, depois da revolução, em
Março de O soviete de Petrogrado Enquanto estive na Rússia, vi como funcionava o soviete de Petrogrado de deputados operários e soldados, que pode servir como exemplo do funcionamento das unidades urbanas de governo num Estado socialista. Constava de uns 1200 deputados e em circunstâncias normais fazia reuniões plenárias de 15 em 15 dias. Nos intervalos elegia um Comité Executivo Central de 110 membros, proporcionalmente aos partidos representados e dando lugar como convidados a delegados do comité central dos sindicatos, dos comités de fábrica e outras organizações democráticas. Junto com o soviete da cidade, existiam também os sovietes de bairro (rayon), que administravam a sua zona da cidade. Os bairros em que não havia fábricas também tinham a sua representação: os cozinheiros, criados, varredores, porteiros, etc., elegiam os seus próprios delegados. As eleições fazem-se por
representação proporcional, o que significa que cada partido está
representado na proporção exacta do número total de votantes na cidade. E os
eleitores votam nos partidos políticos e nos seus programas, não
Nunca antes existiu um corpo político mais sensível à vontade popular. Isto é importante, pois nos períodos revolucionários a vontade popular muda com grande rapidez. Por exemplo, durante a primeira semana de Dezembro de 1917 houve desfiles e manifestações a favor da Assembleia Constituinte, ou seja, contra o poder soviético. Um desses desfiles sofreu um tiroteio, devido à acção de um guarda vermelho irresponsável e várias pessoas morreram. De imediato, mais de uma dezena de deputados bolcheviques foram destituídos e em seu lugar foram eleitos deputados mencheviques. Só passadas três semanas o sentimento popular se acalmou e em nova eleição os mencheviques foram de novo substituídos por bolcheviques Os comités de fábrica Quando estalou a revolução de Março, os patrões e administradores de muitas fábricas, ou fugiram ou foram expulsos pelos trabalhadores. Sem directores, sem capatazes, em muitos casos sem engenheiros e contabilistas, os trabalhadores tinham que continuar a trabalhar para não morrer de fome. Em cada fábrica elegeram um comité, com um delegado de cada secção. A princípio, este parecia um plano sem futuro. A falta de formação técnica dos trabalhadores dava lugar a tremendos erros. Depois começaram a contratar técnicos que trabalhavam sob a autoridade do comité de empresa. Depois dos três primeiros meses da Revolução, durante os quais a classe média e as organizações proletárias trabalharam juntas numa harmonia utópica, os capitalistas industriais começaram a temer o poder crescente e a ambição das organizações trabalhadoras. Na primeira metade de Junho, começou a campanha mais ou menos consciente de toda a burguesia para deter a revolução e decompor as organizações democráticas. O patronato tentou atacar os comités de delegados de fábrica, para depois se lançar contra os sovietes. Sabotou a maquinaria e o funcionamento das fábricas, paralisou o transporte, as minas de carvão e metal. Não se pouparam esforços para encerrar as fábricas e levar os trabalhadores ao desespero, a fim de os convencer a submeter-se ao anterior regime. Os trabalhadores resistiram. O Comité de Delegados de Fábrica reagiu e tomou o comando. De começo, naturalmente, os trabalhadores cometeram erros absurdos, como a imprensa tem denunciado. Pediam salários impossíveis, tentaram levar a cabo processos de manufactura tecnicamente difíceis sem experiência suficiente, em alguns casos pediram mesmo ao chefe que voltasse nas condições que quisesse. Mas esses casos foram uma ínfima minoria. Os patrões tentaram falsificar os livros, ocultar encomendas; o Comité de Delegados de Fábrica teve que encontrar formas de controlar a contabilidade. Os patrões roubavam peças das máquinas; o comité determinou que nada podia entrar ou sair da fábrica sem autorização. Quando a fábrica estava prestes a fechar por falta de combustível, matérias-primas ou encomendas, o Comité tinha que enviar homens através de meia Rússia para obter minério, ou óleo, ou algodão; e os trabalhadores tinham que enviar delegados a vender o produto fabricado. Durante a paralisação dos transportes ferroviários, os agentes do comité tiveram que chegar a acordo com o Sindicato de Ferroviários para o transporte de cargas. O Comité de Delegados de Fábrica foi uma criação da anarquia russa, forçada pela necessidade de aprender a dirigir a indústria, para que quando chegasse o momento, os trabalhadores pudessem assumir o controle real com menos dificuldades. O despertar dos camponeses Observadores mal informados, intelectuais sobretudo, costumam dizer que estão a favor dos sovietes mas contra os bolcheviques. Isto é um absurdo. Os sovietes, órgãos de representação mais perfeita da classe trabalhadora, são também as armas da ditadura do proletariado, e é a esta que todos os partidos anti-bolcheviques se opõem ferozmente. O exemplo mais notável é-nos dado pelos camponeses, que não tomaram a direcção da revolução e cujo primeiro e quase exclusivo interesse era a confiscação das grandes propriedades. O partido tradicional dos camponeses é o Partido Socialista Revolucionário. A grande massa inerte de camponeses cujo único interesse era a sua terra e que nunca tivera força lutadora nem iniciativa política, a princípio não quis ter nada a ver com os sovietes. Todavia, aqueles camponeses que participaram nos sovietes, depressa despertaram para a ideia da ditadura do proletariado. E quase invariavelmente tornaram-se partidários do governo soviético. No momento da insurreição
bolchevique poderia ter sido eleita uma Assembleia Constituinte com maioria
anti--soviética. Um mês depois isto já era impossível. Assisti a três
Convenções de Camponeses de toda a Rússia, em Petrogrado. Os delegados
chegavam – a grande maioria socialistas revolucionários de direita. Começava
a sessão – eram sempre sessões violentas – sob a presidência de Avksentiev ou
Peshekhanov. Ao fim de poucos dias a assembleia deslocava-se para a esquerda
e era dominada por pseudo-radicais como Tchernov. Então a minoria
conservadora cindia-se e organizava uma outra convenção alternativa que
acabava Nunca esquecerei a Conferência
de Camponeses que teve lugar em finais de Novembro,
John
Reed - Extraído
de um artigo publicado no jornal The
Liberator, Outubro de 1918. |