Ponto de Vista

 

O acordo da vergonha

 

Inesperado e chocante para muitos apoiantes do Bloco de Esquerda, o acor­do assinado pelo vereador Sá Fernandes com António Costa está na lógica do cur­so político do BE.

 

As justificações com que procura co­brir-se não resistem à mínima análise.  A desculpa de que Sá Fernandes nego­ciou à revelia da direcção do Bloco cai pe­la base: se violou os compromissos assu­midos, porque não é publicamente de­sautorizado pela direcção do BE? É óbvio que negociou porque lhe foi dada liberdade de acção para tal.

 

Garante-se, por outro lado, que o ve­reador do BE vai “obrigar” António Cos­ta a adoptar, para além de programas difusos e mais ou menos líricos, medidas de contenção das rendas de casa. Falta sa­ber quando isso acontecerá e quem be­neficiará dessas medidas. E falta saber so­bretudo, as contrapartidas que o BE terá que pagar quando chegar a hora de fazer face à escabrosa questão das fi­nanças municipais e tiverem que ser vo­tados os esperados “sacrifícios”: privati­zação de serviços, cortes de pessoal, cor­tes de regalias, regime de precários, etc.

 

Toda a pessoa minimamente sensata percebe que este acordo serve o gover­no, não a oposição popular. Forçado a encontrar parceiros devido à sua escas­sa votação, o PS optou por utilizar o alia­do mais dócil e mais interessante para o futuro. Porque este acordo abre, a médio prazo, perspectivas para um acordo de go­verno em 2009, se o PS não obtiver, como tudo indica, maioria absoluta nas legislativas.

 

O acordo assinado na Câmara de Lis­boa tem que ser lido como um primeiro pas­so para a entrada do BE na área go­vernativa – o sonho há muito acalenta­do por Miguel Portas, Louçã e Fazenda e que só os muitos ingénuos ignoram.

 

Na última PO, fazendo o balanço da V convenção bloquista, recomendáva­mos ironicamente: “É bom que o PS co­mece a olhar com mais atenção para este ‘irmão mais novo’, com vista a futuros arranjos de governo” porque “esta con­venção marca a entrada do BE na idade adulta, como partido do sistema, perna es­querda da social-democracia”. Parece que não errámos.

 

Aliás, a deriva em que o Bloco está a ser arrastado é comum a todo o arco da esquerda institucional, PCP incluído. Estes partidos reduziram toda a sua es­tratégia ao apelo “Dêem-nos mais depu­tados para podermos, dentro deste sis­tema, ir para o poder e governar melhor, com mais honestidade, respeito pelos in­teresses nacionais, atenção aos desprote­gidos, etc., etc.”

 

Acontece, porém, que nesta época de brutal ofensiva capitalista, a tradicional mar­gem de regateio de que se alimentava o discurso reformista está reduzida a ze­ro. Agora só vão para o poder os parti­dos que dêem garantias de melhor servir o mundo dos negócios ao mais baixo cus­to – caso do PS. Começa a ser muito difícil convencer alguém de que a “es­querda construtiva”, PCP e BE, alguma vez chegue ao governo, a não ser que cum­pra as exigências do capital.

 

Chegámos a um ponto em que aque­les que têm jogado a carta do reformis­mo votando PCP ou BE se perguntam que utilidade tem esse voto. E isto anun­cia a bancarrota da utopia de um capita­lismo domesticado.

 

O acordo do BE com o PS só agrada àqueles militantes que perderam todo o es­pírito de resistência e que se sentem tan­to melhor quanto mais integrados no sistema. Àqueles, pelo contrário, que con­servam o desejo de mudar esta socie­dade feroz, dizemos: Foram anos perdi­dos os anos gastos a apoiar a miragem re­formista. É hora de iniciar um real rea­grupamento à esquerda. É hora de reto­mar a luta unida da esquerda real, a es­querda anticapitalista. Estamos ao lado de todos os que quiserem trilhar esse ca­mi­nho.              

 

5 Agosto 2007

Política Operária         

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