A nova Guerra Fria


O cerco norte-americano em torno da Rússia avança a tal velocidade que se torna difícil manter a ficção de um relacionamento amistoso


Rodeada de um enorme aparato policial con­tra os protestos dos movimentos pacifistas, a ci­meira do G8 em Rostock pareceu mar­car um compasso de espera na agreste disputa entre a Rússia e a parceria EUA-UE, disputa que já tinha azedado o encontro UE-Rússia, em Maio. As cau­sas invocadas para o diferen­do vão des­de os fornecimentos de petróleo e de gás ao comér­cio com a Polónia, aos in­cidentes com a Estónia, e às vio­lações dos di­reitos humanos na Rússia, condimento infa­lível quando se quer ganhar a simpatia da opi­nião pública.
Na realidade, a crise resulta da decisão norte-ameri­cana de instalar um escudo antimísseis na Polónia e na República Checa, às portas da Rússia (instalação se­melhante está a ser projectada para a Geórgia). Dizer que este escudo antimísseis é puramente defensivo, pa­ra a eventualidade de “um ataque iraniano ou norte--coreano”, e que não altera o equilíbrio estratégico – é mero cinismo diplomático. Obviamente, se os EUA se puserem ao abrigo de uma retaliação da Rússia, fica­rão em condições de lançar uma ofensiva quando qui­serem e onde quiserem.
Não é de estranhar que Putin tenha reagido violen­tamente, falando em “nova corrida aos armamentos” e no “risco de destruição recíproca”. Passando de ime­diato à acção, fez o teste de um novo míssil e anuncia que as baterias russas vão ser apontadas à Europa.
Na realidade, o cerco norte-americano em torno da Rússia avança a tal velocidade que se torna difícil man­ter a ficção de um relacionamento amistoso. Desde a promoção das “revoluções coloridas” aos “progra­mas de apoio à democracia” e às bases militares – todo o cordão de repúblicas em torno da Rússia, da Europa Oriental ao Cáucaso e à Ásia Central, está a ser trabalha­do por Washington. Sem falar da réplica da NATO em construção no Extremo Oriente, apoiada no Japão e na Austrália, e que visa fechar o cerco em torno da China e da Rússia.


Irão: de “pária” a aliado?

A pressão sobre a Rússia tem objectivos estratégi­cos a longo prazo. Mas está a intensificar-se devido à recusa de Putin em suspender os fornecimentos de ma­terial militar e nuclear ao Irão.
De facto, o Irão continua no centro dos planos nor­te-americanos de “arrumação” do Médio Oriente. A aparente reviravolta das conversações americano-ira­nianas (num golpe de teatro, os EUA convidam o Irão a ajudá-los a “tomar conta” do vespeiro iraquiano) não pode fazer esquecer que o alvo central de Washington é abater o poderio do regi­me de Teerão.
Há quem considere absurda a hipótese de um ata­que relâmpago dos EUA às instalações nucleares do Irão, quando as campanhas no Iraque e do Afeganistão se afundam no pântano e as baixas americanas crescem de mês para mês. Mas essa pode ser justamente a moti­vação a empurrar os comandos do Pentágono para uma nova aventura. Foi também assim que há 40 anos, atascados na guerra do Vietname, lançaram ataques aéreos devastadores sobre os “santuários” do Laos e do Camboja.


Europa ganha tempo

O que há de novo neste cenário é a colagem da Eu­ropa à estratégia de Bush. As declarações dos novos governantes em Berlim e Paris são claras a esse respei­to. Mas seria errado ver nisto uma inversão da política de gradual autonomia da Europa face ao gigante ame­ricano. Para os meios dirigentes da UE trata-se de contemporizar para ganhar tempo e acumu­lar forças.
Precisamente para avançar nesse sentido, Merkel e Sarkozy relançam o Tratado Constitucional, agora re­duzido a um “minitratado” que possa ser aprovado “sem mais delongas” nos parlamentos. Esperam assim dar corpo a uma política externa e militar comum e fa­zer surgir um efectivo centro europeu de poder, superando a grande desvantagem da UE no concerto das grandes potências.
Entretanto, colhem dividendos das parcerias com o salteador americano, seja no Afeganistão, no Líbano, no Irão ou no Sudão. Segundo a imprensa belga, Wa­shington está disposto a retribuir o acordo da União Europeia à instalação do escudo antimísseis na Europa Oriental com suculentas encomendas de armamento. Só a construção de 20 mísseis, com radares, satélites e respectiva tecnologia, envolverá encomendas da ordem dos 26.600 milhões de dólares.


A dívida

Para melhor compor o quadro do aventureirismo pre­dador capitalista em que estamos a ser arrastados, será bom reflectir sobre a opinião de um especialista russo, Leonid Ivachov: “Para fugir à desvalorização do dólar, a única coisa que os EUA têm a oferecer ao res­to do mundo são operações militares como as da Ju­goslávia, Afeganistão e Iraque. Mas esses conflitos só resolvem o problema a curto prazo. É preciso algo maior e o mais depressa possível. Aproxima-se a pas­sos largos o momento em que a crise financeira mun­dial porá a descoberto que as divisas dos EUA, todo o seu potencial industrial, tecnológico, etc., não perten­cem legalmente ao país.”

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