“Já chega de 25 de Abril voltado para o passado”

Entrevista


A carga policial do dia 25 de Abril contra o bloco de manifestantes na Rua do Carmo, largamente denunciada na imprensa alternativa, não despertou da parte da esquerda institucional o protesto que se impunha. Ouvimos um dos participantes, que, por razões óbvias, quis guardar o anonimato.

Qual a vossa intenção ao arrancar com uma manifestação própria na Praça da Figueira?
Quisemos realizar uma acção anti-autoritária, antifascista e anticapitalista, que se demarcasse da parada que desceu a Av. da Liberdade a lançar palavras de ordem com mais de 30 anos. Uma manifestação mais combativa e radical, mais voltada para o presente do que para o passado. Uma resposta ao crescimento da agitação e provocação fascista dos últimos tempos, bem como ao aumento do desemprego e da precariedade social.

Como se desencadeou a carga da polícia?
Ao longo do percurso foram pintadas algumas frases e atiradas algumas bolas de finta a vidros de lojas e bancos. Nenhuma montra foi partida. Mas, depois de uma parte dos manifestantes ter dispersado no Camões, quando os restantes, umas cem pessoas, desciam a Rua do Carmo, foram cercados por um grupo de polícias à paisana que chamaram a polícia de intervenção, que tapou as duas saídas da rua. Os manifestantes e os transeuntes ficaram cercados e foram carregados indiscriminadamente. As pessoas que caíram no chão foram pontapeadas e espancadas. As que se encostaram à parede foram igualmente agredidas, a maior parte sem esboçar qualquer resposta. Doze pessoas foram presas, tendo algumas delas sido agredidas quando já estavam detidas.

Pensas portanto que houve uma intenção deliberada de agredir os manifestantes?
Sem dúvida. A polícia poderia ter simplesmente dispersado a manifestação se quisesse. Quis, em vez disso, espancar o maior número possível de pessoas, provocar-lhes medo e assegurar que a sua autoridade não voltaria a ser desafiada. Não é de estranhar. O corpo de intervenção já está conhecido como um bando de rufias fardados e equipados à nossa custa.

Mesmo assim, consideras o balanço da vossa manifestação positivo?
Muito positivo. Foi a primeira vez, desde há muito, que uma manifestação do 25 de Abril teve um cunho de combate e conflito, a exprimir de forma clara a nossa recusa da fascização das instituições. O monopólio da violência ao serviço da propriedade privada está tão fortemente inscrito nos nossos imaginários que a maioria das pessoas acha impossível desafiá-lo. O mais que conseguem é lamentar a violência policial “excessiva”. Mas não será que a violência policial em Portugal nunca foi outra coisa senão excessiva?

Falas dos tempos do fascismo?
Falo do tempo da democracia. Como em Maio do ano passado, quando mais de 600 agentes da PSP montaram cerco ao Bairro da Torre, em Camarate, vandalizando habitações e agredindo moradores. Um mês antes, uma casa ocupada havia sido despejada pelo GOE, de arma na mão; as pessoas foram levadas directamente das suas camas para celas prisionais. Em vários bairros de barracas, sujeitos a operações de demolição sem realojamento (Azinhaga dos Besouros, Fontainhas ou Quinta da Serra) as forças da PSP invadiram casas e agrediram pessoas enquanto as máquinas destruíam os poucos bens dos moradores. Em Março foi a carga policial contra os trabalhadores da Pereira da Costa, na Amadora. Mais recentemente, uma marcha contra o encerramento do serviço de urgências, em Caminha, sofreu uma carga policial. Na periferia, jovens dos bairros pobres são continuamente espancados e perseguidos pela policia.

Querem portanto reagir contra esta situação?

É urgente fazê-lo, porque há vozes de condenação mas escasseia a resposta que se impõe. Que sentido faz celebrar o Dia da Liberdade quando vemos, em nosso redor, um tal dispositivo de violência? Paira no ar desta democracia um odor bolorento.

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