As relações entre a vanguarda e as massas

José Mário Branco


A Revolução proletária só poderá acontecer e sobreviver se e quando uma grande massa de trabalhadores po­bres, de várias camadas aliadas para esse fim, assumir como seu esse projecto de transformação da sociedade. O papel da van­guarda na libertação das consciências proletárias e na produ­ção de ideias políticas, como o fermento que faz levedar o pão, levanta a questão da relação dialéctica entre a vanguarda e as massas. Como resolver a contradição entre os dois pólos: uma organização de massas, por um lado, um exército de quadros experimentados e politicamente avan­çados, por outro? Para o compreendermos, temos de responder à per­gunta: quem é o protagonista da Histó­ria, em particular “des­ta nossa história”? Proponho algumas pistas para a re­flexão.

A nossa experiência de trabalho supostamente frentista, sobretudo em 74-82, faz pensar que o partido que se assume como vanguarda do movimento operário tem tendência para se comportar como uma espécie de elite do movimen­to ge­ral. Podendo sê-lo realmente quanto à preparação político-ideológica, à dedicação e à coragem de muitos dos seus qua­dros, essa tendência afectou o seu comportamento na fren­te, junto das massas, sob a forma de “pressa” e de “falta de paciência”. Notou-se uma incapacidade para compreen­der (e aceitar) que não basta levar as massas a fazerem o que a vanguarda considera justo, oportuno e necessário, mas é também indispensável – e crucial para o êxito do mo­­vimento – que as massas o façam porque o querem fazer, porque o compreendem e porque, compreendendo-o, fazem suas as orientações que ela lhes propõe.
Não duvido de que o processo revolucionário das massas precisa de uma elite de dirigentes e de quadros, como prova a experiência leninista e toda a discussão em torno dela. Mas, entre a elite de quadros e as grandes massas, te­mos de en­contrar uma solução potenciadora da energia revolucio­nária destas – modelos de organização, comportamentos, discurso.
Os movimentos espontâneos de revolta, devidos a situa­ções históricas e sociais concretas, podem traduzir-se em ini­­ciativas violentas e radicais das massas populares, inicia­tivas que – ao contrário das críticas dos reformistas – consti­tuem uma preciosa experiência de luta das próprias massas, uma to­mada de consciência da sua força, do seu protagonis­mo, da sua capacidade para mudar a vida. Independentemen­te de beneficiarem, ou não, de circunstâncias objectivas pro­pi­ciadoras de mudanças revolucionárias, esses movimentos sociais são sempre favoráveis à revolução, porque consti­tuem momentos de revelação de contradições essenciais, de tomada de consciência de milhares de explorados – um salto qualitativo nas condições subjectivas (cujo do­mí­nio, com os progressos tecnológicos, a burguesia acen­tuou e refinou de forma avassaladora nos últimos cem anos).
Os quadros revolucionários – sobretudo quando não têm uma profunda e prolongada experiência de viverem mer­­gulhados no movimento geral – têm dificuldade em pôr as suas certezas ideológicas e políticas à prova de fogo das lutas concretas, quase sempre parcelares, recuadas, muito lon­ge ainda dos objectivos estratégicos tão presentes e claros nas suas mentes. Com toda a naturalidade, quase inevitabi­lidade, acentua-se o fosso entre a elaboração do discur­so interno do partido revolucionário e a sua prática social concreta; esta discrepância favorece a tendência para o fe­chamento do discurso – que prenuncia o fechamento das mentalidades –, a tendência para a discussão, talvez elabora­da, mas em círculo fechado, o estreitamento desse mes­mo círculo e, por fim, o surgimento de contradições entre pe­quenos grupos de pessoas que já pouco ou nada têm a ver com a expressão de concretos interesses políticos e sínteses de classe.
Não é que o discurso fechado – no sentido de discurso li­mi­tado quanto ao número dos que o podem compreender – seja um mal em si mesmo. Qualquer teorização, mesmo que baseada em conhecimentos empíricos, precisa de forma­lizar os conhecimentos com crescentes níveis de abstracção. Mas, para que esse fermento das ideias possa penetrar nas massas, transformando a energia em movimento, há a neces­sidade de “traduzir” a teoria para o nível da vida prá­tica, ou me­lhor, da prática política. A sede, ou campo de pro­dução, da linguagem da acção política têm de ser as mas­sas. Os “cha­vões” não são forçosamente errados, mas são inadequa­ções de linguagem – não são abstractos para a vanguarda, mas são-no para as massas; eles têm um con­teúdo que não é abstracto para a vanguarda, mas podem ser totalmente opa­cos para as massas, porque elas realmente não sabem o que significam. Podem ter um papel no incita­mento à acção, mas isso não é forçosamente libertar consci­ências. A van­guarda não se pode contentar com ter razão; tem de ser capaz de transformar a razão (as ideias) em movi­mento.
O que me leva a pensar que a luta ideológica e política no seio da vanguarda tem de fazer parte da auto-educação revolucionária das massas – ou, para falar em concreto, as dis­cussões entre revolucionários devem ser testemunhadas pelas massas que estão no movimento. Não há razão nenhu­ma, nem de princípio nem de organização, para o debate po­­lítico e ideológico entre revolucionários ser ocultado. O se­cretismo em relação às massas (salvaguardadas as questões de segurança face ao inimigo de classe, em situações de re­­pressão aguda) é, em si mesmo, um sinal de separação das massas, senão mesmo de desprezo por elas.
Inversamente, o trabalho lento e aturado dos revolucio­nários no seio das massas tem como contrapartida a aprendi­zagem e o aperfeiçoamento deles próprios – aprendiza­gem das condições objectivas e de novas formas de luta, nascidas da prática e da criatividade das massas; aperfeiçoa­mento dos métodos de militância, de crítica e de debate de ideias.
Na relação entre a vanguarda e as massas em movimento, contrariamente à ideia errada originada por uma longa tradi­ção “partido-centrista”, é a luta de classes – ou seja, o desenvolvimento das forças produtivas e a agudização das con­­tradições entre o trabalho e o capital – que gera a van­guarda, e não o contrário. Está aqui, implícita, uma “genea­logia” do movimento que é inversa da que, sistemati­camente, subjaz em muitos raciocínios. São as massas em mo­vimento o verdadeiro protagonista das transformações históricas, sen­do o papel da vanguarda secundário em relação a elas, por mais importante, indispensável ou decisivo que possa tor­nar-se.
Estes tópicos para a reflexão, a terem alguma consistên­cia e valor, deveriam continuar a ser desenvolvidos, um por um, à luz da nossa experiência vivida (positiva e negativa) e, claro, à luz da experiência acumulada do movimento ope­rário. Porque é em torno destas questões – da visão que conseguirmos ter do processo histórico das revoluções – que poderemos desenvolver ideias novas, ou simplesmen­te renovadas, acerca de vários temas cruciais da Revolução pro­­letária. O tema da organização da vanguarda e da sua re­la­ção com o movimento de massas. O tema da democracia proletária e do exercício do poder revolucionário. O te­ma da importância decisiva – mais decisiva ainda no nosso tem­po – das condições subjectivas da Revolução e da sua essen­cialidade na transformação social, nomeadamente quanto ao papel da cultura e das artes no processo revolu­cionário. O tema da relação entre os princípios e o real, en­tre o pensa­mento e a acção, entre política estratégica e política táctica.

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