Greve em São Petersburgo


Em 14 de Fevereiro, a equipa de tra­balho nocturno na fábrica Ford nos arre­dores de São Petersburgo, Rússia, entrou em greve. No dia seguinte, outros turnos aderiram – no total, 1900 operários em greve, 80 por cento dos efectivos. Reivin­dicam aumentos salariais, férias pagas, con­tratos colectivos, medidas de defesa contra os acidentes de trabalho. Esta é a ter­ceira greve nesta fábrica desde há um ano – o que não é dizer pouco, visto que a greve foi declarada ilegal pelo tri­bu­nal. O código do trabalho russo colo­ca tais condições ao direito de greve que uma greve legal é caso raro.
A administração da Ford e as autori­dades russas reagiram apresentando os gre­vistas como “privilegiados”, visto o seu salário médio de 10.000 rublos (300 euros), ser superior ao que se pratica na maioria das indústrias. Respondem os ope­rários com dois números eloquentes: o director da fábrica ganha 20 vezes mais que um operário; e o aluguer de um quar­to na cidade leva-lhes 40% do salário.
Não se sabe ainda que desenlace terá este movimento. Mas é um facto que nas antiquadas linhas de montagem de auto­móveis que o governo russo ofereceu a bai­xo preço às companhias ocidentais, Ford, Renault e outras, cresce o espírito de luta dos operários.

A greve da Ford, como a dos trabalha­dores petrolíferos de Surgut, docu­menta uma tendência recente para a rea­nimação das tensões sociais e do movi­mento rei­vindicativo. Os preços eleva­dos obtidos nos mercados pelo petróleo e o gás, ao mes­mo tempo que estimulam o desen­volvimento industrial, estão a criar me­lhores condições de luta ao operariado.
Fica para trás um longo período de de­sorganização e passividade, que se es­tendeu ao longo dos anos 90. De facto, de­pois da agitação caótica que se seguiu à queda do anterior regime, em 1989-1990, com a vaga de lutas locais, os bole­tins de empresa, a multiplicação de sindi­catos “não filiados”, a classe operária de­frontou uma grande desilusão ao chocar-se com as realidades da “conquista da liberdade”.
Os salários reais sofreram uma forte queda. Para sobreviver, a maioria das fa­mílias operárias tiveram que encontrar com­plementos ao salário por meio de acti­vidades paralelas. O ritmo de traba­lho acelerou-se, as condições laborais de­terioraram-se. Devido aos equipamentos obsoletos e às economias nos gastos com a segurança, multiplicaram-se os aci­dentes de trabalho. O anterior acesso ao lazer e ao desporto tornou-se um luxo só para ricos.
Esta derrota provocou um ambiente de desmoralização e passividade – luta individual pela sobrevivência, apatia, al­coolismo – agravado pelas alterações de fundo na indústria: forte redução do pro­letariado, o seu envelhecimento (os jo­vens fogem da fábrica), desqualificação, dispersão (entre 1991 e 1995, as gran­des empresas de mais de 5000 operários tiveram uma redução de dois ter­ços), grandes diferenças salariais confor­me os sectores, as profissões e as regiões, etc. Naturalmente, não deixou de haver lutas e greves “selvagens” locais, mas que não tiveram publicidade nem repercus­são. A excepção foi a greve dos mineiros do Kuzbass, que bloquearam a via do Tran­siberiano em Maio-Junho de 1998.
Na origem dessa passividade, obser­vam militantes russos, houve também factores culturais. Criada na grande in­dustrialização dos anos 30, a classe ope­rária “soviética”, colocada sob a tutela do Estado “socialista”, perdera os laços com as tradições de luta anticapitalista anteriores a 1917 e estava desarmada pa­ra enfrentar as realidades da exploração capitalista intensiva. Foi preciso fazer, ao longo da década de 90, toda uma apren­dizagem que começa agora a dar fru­tos. Nos meses recentes, têm vindo a suceder-se de novo os protestos espontâneos contra os salários em atraso e as péssimas condições de trabalho, mas também acções reivindicativas organiza­das com apoio sindical e greves impor­tantes como a da Ford de São Peters­burgo.

* Marlen Insarov, 2004, cit. em Échanges, Paris, www.mondialisme.org

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