O assassinato de Saddam Hussein

Manuel Vaz (em Paris)


O enforcamento de Saddam Husein, após uma mascarada de julgamento encenada pelo governo fantoche de Nouri al-Maliki, foi sentido pelos povos árabo-muçulmanos e por esse mundo fora como um novo crime da tirania americana.
O assassinato de Saddam Hussein foi um assassinato político. Queiramos ou não, ele incarnou a ideia de resistência ao dikat insolente da potência americana no Médio Oriente. Depois de ter sido durante anos a fio o odioso servidor dos interesses das potências imperialistas nesta região do mundo (a guerra de agressão contra o Irão, em 1980-88, aí está para prová-lo), Saddam Hussein, a partir de 1991, guindou-se à posição destemida de lutador contra a política colonial do imperialismo ianque.
Os órgãos de propaganda ocidentais bem se esforçam por apresentar o linchamento do ex-raïs como um acto de simples justiça contra o ditador de Bagdad. Em vão.
Primeiro, porque instintivamente os povos do mundo acostumaram-se a julgar positivamente tudo o que o imperialismo apresenta como uma manifestação do mal. Quando Bush fala de terrorismo os povos traduzem automaticamente por resistência. Em seguida, porque essa faceta bem real do personagem já tinha sido sepultada e resgatada desde 1991, quando Saddam Hussein e o partido Baas passaram da colaboração à resistência. E este é o aspecto polémico do personagem e do sistema político iraquiano sistematicamente minimizado pelos médias ao serviço do imperialismo (o que não nos deve surpreender), mas igualmente por forças políticas de esquerda pretensamente solidárias com a resistência do povo iraquiano, que obscurecem ou sabotam este debate e abandonam as tarefas internacionalistas.


“NEM BUSH NEM SADDAM”?

A clarificação desta questão é crucial para não perdermos de vista a edificação de um movimento antiguerra de massas, a construção de uma frente anti-imperialista e um apoio eficaz aos povos do Iraque, da Palestina, do Líbano em luta.
Não foram raros aqueles que, nestes últimos quinze anos, pretenderam fustigar o imperialismo ianque e apoiar o povo iraquiano com base na palavra ordem “Nem Bush nem Saddam!”, sugerindo assim que os dois tiranos deviam ser colocados politicamente no mesmo pé de igualdade; suprimindo o abismo que separa os agressores dos agredidos. Enfim, ocultando propositadamente a transformação política operada no Médio Oriente com a entrada em resistência de Saddam Hussein e o seu partido com a primeira guerra de agressão de 1991. “Nem Bush nem Saddam” é uma maneira de resumir a agressão dos povos e nações do Médio Oriente a uma simples questiúncula entre fracções da burguesia, a uma simples querela interna resultante das contradições interimperialistas. “Nem Bush nem Saddam!” – ou “tanto vale um como o outro” – acaba por ser um estúpido apelo à deserção da frente de luta anti-impertialista, como já tivemos a oportunidade de dizer nestas colunas e noutra ocasião.
Onde as forças políticas orientadas por um tal pensamento impuseram o seu ponto de vista ao movimento antiguerra, as consequências foram desastrosas: colectivos anti-imperialistas reduzidos a grupúsculos; manifestos, panfletos e comunicados políticos desmobilizadores, mais preocupados em se demarcarem do “terrorismo islamista” que outra coisa; manifestações ridículas de dezenas de pessoas em contraste flagrante com as mobilizações de centenas de milhares de pessoas em Londres, Madrid, Roma...
Mas a pior das consequências resultou na marginalização de largos sectores da população trabalhadora árabe ou de origem árabe, estigmatizados uniformemente com o pecado mortal de “islamistas”!... O caso é particularmente flagrante em França onde o movimento antiguerra e de apoio à resistência iraquiana não tem expressão de massa, onde os trabalhadores árabes foram hostilizados por não adoptarem o estilo politicamente correcto (“Nem Bush nem Saddam!”). Uma boa parte acabou por cair nos braços da extrema-direita que, na circunstância, assumiu como sua a questão nacional árabe! (Teremos a ocasião de avaliar a amplitude do desastre aquando das eleições presidenciais previstas para fins de Abril próximo).


DESVIAR AS ATENÇÕES DA DERROTA

O assassinato de Saddam Hussein reveste ainda um outro significado que deve ser posto em relevo. Durante os últimos 45 meses de ocupação, a estratégia ianque saldou-se por uma tripla derrota:
1) Por um lado, a ocupação anglo-americana foi incapaz de quebrar a resistência e, do ponto de vista militar, a sua derrota é agora patente. O relatório de James Baker, de 6 de Dezembro 2006, não diz outra coisa;
2) Parece igualmente uma evidência que as diferentes tentativas de negociação com a resistência, anunciadas pelo próprio ocupante, com vista a encontrar uma saída airosa, fracassaram;
3) Por fim, o colossal “esforço de guerra” está a abalar fortemente, dos pontos de vista psicológico, político e económico, o império americano, que vai acumulando dificuldades e se avizinha cada vez mais do colapso.


A APOSTA NA GUERRA CIVIL

Saudado por Bush como um “marco na marcha do Iraque para a democracia”, o assassinato de Saddam Hussein veio confirmar plenamente a nova estratégia – temos vontade de dizer, a última cartada – que a dupla Bush/Olmert já tinha começado a pôr em vigor na Palestina após a ampla vitória do Hamas nas últimas eleições legislativas. Trata-se de explorar por todos os meios, as rivalidades étnicas, os conflitos religiosos. Fomentar a guerra civil etno-religiosa para tentar quebrar e aniquilar a resistência. No Iraque o ocupante procura acirrar as contradições nacionais entre curdos, árabes e persas e no plano religioso opor sunitas contra xiitas. Na Palestina, sionistas e ianques apoiam agora descaradamente, tanto do ponto de vista militar como financeiro, a burguesia compradora encabeçada pela dupla Abbas /Dalhan com a esperança de que a guerra civil se instale, as fileiras da resistência quebrem e o Hamas, principal bastião resistente, desapareça da cena política.
Neste contexto, a divulgação da banda sonora do enforcamento de Saddam Hussein reveste outro significado: trata-se de atribuir o assassinato do ex-raïs à “barbárie xiita” e apresentar a execução no primeiro dia do Aíd al-Adha como um sacrilégio dos xiitas. Em suma, a morte de Saddam Hussein seria antes de mais uma vingança tribal e religiosa. Responsabilizar os xiitas por um tal acto equivale por outro lado a implicar na conspiração o Irão (onde os xiitas são amplamente maioritários). Assim, o concerto internacional orquestrado pelas nações dominantes resume o drama desta maneira: enquanto os sunitas choram, os xiitas dançam de alegria. Eis a armadilha montada pelos americanos e os seus cúmplices.
Ora, no que diz respeito ao Irão as coisas não são assim tão simples. Se tomamos como referência o artigo do correspondente em Teerão do quotidiano populista Le Parisien (2/01/2007), constatamos que os iranianos “lamentam que Saddam Hussein não tenha sido julgado pelos seus crimes cometidos durante os oito anos de guerra”, conflito esse “desencadeado e levado a cabo com o apoio dos ocidentais”. O correspondente acrescenta ainda que no domingo 31 de Dezembro, a associação iraniana de apoio às vítimas das armas químicas “apela à população para punir os cúmplices de Saddam; isto é, os Americanos e Europeus”. O Hezbollah no Líbano e o Hamas na Palestina manifestaram a sua indignação. Estamos longe da alegria proclamada pelos arautos do imperialismo. A armadilha parece não ter funcionado.
Por fim, notemos que na sua última carta dirigida ao povo iraquiano, impregnada de uma grande religiosidade, Saddam Hussein lança um vibrante apelo à unidade popular e nacional para pôr fim à ocupação americana.
Tentar quebrar a resistência anti-imperialista pela guerra civil fratricida parece-nos um estratagema condenado ao fracasso, dadas as forças e a experiência política acumuladas nas três principais frentes de combate: Iraque, Palestina e Líbano. Recordemos a este propósito, que em Julho/Agosto 2006, o Hezbollah fez frente vitoriosamente à agressão sionista do Líbano sem ter necessidade de lançar na batalha as suas reservas; mais: segundo observadores fiáveis, o número de resistentes mortos não foi superior às perdas do inimigo.
Mas os povos do mundo e particularmente o proletariado das metrópoles imperialistas têm o seu papel a desempenhar e ele não é pequeno: levantar o movimento anti-imperialista e enfraquecer por todos os meios – culturais, políticos e militares – o aparelho de guerra imperialista.

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