A aventuras iraquiana está perdida para os EUA

Manuel Raposo


É preciso abreviar-lhe o fim reforçando o movimento mundial contra a guerra

Depois de pedir sugestões a quase meio mundo, a presidência norte-americana decidiu-se pelo caminho que os “duros” preconizavam: enviar mais tropas para o Iraque. O poder norte-americano sabe que está a perder a guerra mas não quer aceitá-lo e tenta o impossível para virar o rumo dos acontecimentos. Não tendo perspectivas de vitória, pelo menos procura gerir a derrota. O seu objectivo é salvaguardar o essencial dos interesses que disputou no Iraque com a invasão.
A decisão de Bush tem sido dada como um sinal do isolamento do presidente. Mas é preciso saber o que isso significa. A administração Bush está progressivamente isolada da opinião pública interna que, em mais de 60%, quer o regresso das tropas. E vai ficando também isolada dos aliados de ontem que, um a um, regressam a casa e deixam os EUA sozinhos no terreno (não apenas no Iraque mas também em boa medida no Afeganistão). Mas o poder norte-americano, por enquanto, lida bem com este tipo de isolamento; não é a consonância com a opinião pública, sua ou estrangeira, ou com os aliados que o preocupa – como se viu quando a agressão foi desencadeada.
Ora, defender os “interesses norte-americanos” é a óbvia plataforma de encontro da classe dominante dos EUA. O relatório Baker, apresentado como bastante crítico da política de Bush, salienta precisamente a necessidade de assegurar os interesses dos EUA no Iraque e na região e obter um consenso nacional, bipartidário, para sair airosamente do atoleiro. O propósito afirmado das medidas que propõe é “proteger a credibilidade, os interesses e os valores norte-americanos” e isto por dois tipos de acções políticas.
Um, é tentar “iraquianizar” a guerra, atirando as forças iraquianas para o confronto directo com a resistência, a fim de poder reduzir o contingente norte-americano no terreno e minorar as suas perdas; incrementando, por outro lado, as acções militares por meios aéreos, a partir de bases seguras no Iraque ou em países fronteiriços; e aumentando o papel dos “conselheiros militares” e dos mercenários, numa espécie de subcontratação da guerra.
Outro, é negociar com as potências da zona (a Síria e o Irão, designadamente) a criação de um equilíbrio regional que sirva o interesse norte-americano e satisfaça os vizinhos do Iraque, levando-os a tentar segurar as facções internas iraquianas a partir de fora. O propósito é isolar a resistência iraquiana, com a qual foram cortados os contactos esboçados a partir do Verão passado, de modo a que o futuro do Iraque não seja determinado por interesses genuinamente iraquianos. Tudo, menos a independência do Iraque.
Bush optou por tentar chegar aos mesmos objectivos de fundo por outro meio: procurar “limpar” Bagdad, talvez para criar uma espécie de Cabul iraquiana, e poder dizer que tem um governo amigo com margem de movimentos para além da “Zona Verde”. É sobretudo para isso, parece, que precisa de mais 20 mil soldados. Só em último recurso recorrerá à sugestão de negociar com a Síria e o Irão, o que obrigaria a cedências que tenta não fazer. O sinal de que os “interesses norte-americanos” estão no centro de tudo e não serão desleixados está na recente legislação sobre o petróleo iraquiano, levada pelos EUA ao governo de Maliki para aprovação, que abre caminho a um domínio quase absoluto das companhias petrolíferas norte-americanas e britânicas por dezenas de anos.
Percebe-se pois a racionalidade da “loucura” de mandar mais 20 mil tropas e de rejeitar para já as sugestões de Baker: se conseguirem limpar Bagdad e aliviar a pressão sobre o governo iraquiano, os EUA podem prolongar o prazo de vida dos seus representantes na zona (estes ou outros) e tê-los, por mais uns tempos, como garantes dos acordos que agora preparam.
Contam, para esta manobra, com a relutância dos Democratas (apesar de maioritários no Congresso) em chumbarem os financiamentos da guerra, a pretexto de não atraiçoarem os soldados no terreno. Se assim for, a opinião pública norte-americana oposta à guerra, que se fez sentir nas eleições de Novembro, corre o risco de ficar refém dos jogos políticos dos Democratas, que criticam as medidas de Bush mas não parecem dispostos a cortar-lhe as verbas.
Como antes, a decisão está em dois lados: na resistência dos iraquianos ao recrudescimento das acções militares que Bush prepara; e na resistência que a população norte-americana levante contra a continuação da guerra.

A aventura iraquiana está perdida para os EUA. O seu fim, e o abreviar dos sofrimentos que implica, depende assim, em grande medida, do crescimento da oposição popular norte-americana. Dependerá também do recrudescimento do movimento mundial contra a guerra. Os factores que o fizeram decair – a impressão de que os EUA eram imbatíveis – estão hoje a inverter-se: é patente para um número crescente de pessoas que o imperialismo está a ser derrotado. Existem condições para reforçar o movimento mundial contra a guerra, pela retirada imediata do Iraque.

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