ETA interrompe trégua


O atentado da ETA no aeroporto de Barajas não foi surpresa para quem tem acompanhado a situação nos últimos nove meses. Vinha a tornar-se claro que para o governo de Madrid a declaração de tréguas pela ETA foi vista, não como um passo para resolver o problema político em aberto no País Basco, mas como uma oportunidade de liquidar a ETA. Ao mesmo tempo que arrastava o processo sem atender nenhuma das reivindicações imediatas dos independentistas (anulação da lei de Partidos que ilegalizou Batasuna, reagrupamento dos presos políticos – são mais de 500 dispersos por cadeias de toda Espanha) e, pelo contrário, acentuava a repressão, o governo Zapatero dava para fora a imagem de que o processo estava a progredir. Com esta manobra esperava iludir a opinião pública, manietar a resistência e levar à desarticulação da ETA.
Desde Agosto, a esquerda basca alertava que o processo entrara em colapso. Mas Zapatero, crente de que a ETA não tinha outra alternativa senão submeter--se, ignorou o significado da manifestação de 11 de Novembro em Bilbao, com 26 mil pessoas exigindo “Euskal Herriak autodeterminazioa”; ignorou a declaração de sete sindicatos bascos de várias tendências, acusando-o de fechar a porta a uma saída democrática; proibiu a jornada de 20 de Dezembro convocada pela Pró-Amnistia sob a palavra de ordem “condições democráticas para a autodeterminação”; assumiu mesmo uma atitude de provocação no caso do preso político Iñaki de Juana Chaos, o qual, depois de ter cumprido integralmente uma pena de quase 20 anos, não foi libertado e sofreu nova condenação de 12 anos, por ter escrito na cadeia dois artigos de opinião. Em greve da fome desde Novembro, Iñaki tem sido alimentado à força por ordem do tribunal.
A ETA tirou as suas conclusões e interrompeu uma trégua que se estava tornar um logro. E, como já era esperado, o atentado foi aproveitado pelo governo para mobilizar a opinião pública, explorando a morte acidental de dois imigrantes (note-se que o comando alertou com uma hora de antecedência e repetidamente da existência da bomba). Falando de início numa “suspensão” das negociações, Zapatero foi forçado logo de seguida, sob a pressão da direita, a declarar encerrado qualquer diálogo com os independentistas.
Em Madrid, os próximos meses serão, ao que tudo indica, de histeria “antiterrorista” e de intensificação da repressão, com PSOE e PP em despique para ver quem melhor capitaliza o chauvinismo espanhol antibasco. Para já, o Supremo ilegalizou três organizações juvenis bascas, acusadas de “terrorismo” por participarem nos protestos de rua. O PP, pela sua parte, convocou uma grande manifestação de “repúdio”.

Mas o mais importante será a evolução da opinião pública dos próprios bascos. Mesmo os que não apoiam a ETA sentem que Madrid traiu as expectativas abertas pela trégua de 22 de Março. A direita basca no governo (PNV) está dividida e incerta sobre o rumo a seguir, como se verifica pela decisão de Ibarretxe de voltar a encontrar-se com Arnaldo Otegi, porta-voz do ilegalizado Batasuna, apesar das proibições dos tribunais.
Com duas tréguas unilaterais no prazo de poucos anos, a ETA demonstrou que os obstáculos à pacificação partem de Madrid. O problema não está na “violência” basca, mas na recusa absoluta de Madrid em criar condições de liberdade para o povo basco se pronunciar sobre o seu destino. A luta vai certamente prosseguir.

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