A batalha de Oaxaca


A irrupção da “Comuna” de Oaxaca – novo sinal de que as massas oprimidas da América Latina já não se satisfazem com a alternância dos governos burgueses e buscam novas formas de vida

No dia 22 de Maio, 60 mil professores do estado de Oaxaca, México, entraram em greve por melhores condições de trabalho e contra o desprezo colonialista das autoridades centrais pela cultura indígena. Milhares de grevistas acamparam no centro da cidade. O governador Ulises Ruiz, do PRI, começou por ignorar a greve. Mas na madrugada de 14 de Junho mais de três mil polícias expulsaram os grevistas da praça com gases lacrimogéneos, causando numerosos feridos. Pelas seis da manhã, os professores voltaram com o apoio de milhares de moradores e recuperaram o Zócalo (praça central), expulsando os polícias.
A partir daí, a luta dos professores ganhou o apoio da imensa maioria das comunidades de Oaxaca, primeiro da capital e depois de todo o estado. Assim se criou a Assembleia Popular Permanente de Oaxaca (APPO), integrada por 350 organizações sociais que se solidarizaram com o movimento de professores e exigiram o fim da onda de assassinatos de lutadores sociais por parte do governo, assim como a saída do governador. Em dois anos Ulisses Ruiz ordenou o assassinato de 35 dirigente sociais, e prendeu mais de 200, desviou milhões de pesos destinados a obras sociais para as campanhas eleitorais do PRI e para as suas próprias empresas.
Com a criação da APPO o levantamento popular recebeu forte impulso. A partir de 21 de Agosto, o povo assumiu o controle de Oaxaca. Os partidos, tanto o PRI como o PAN, e inclusive o PRD que se diz de centro-esquerda, foram marginalizados. Todas as decisões e determinações passaram a ser tomadas de forma colectiva. Para impedir a acção dos esquadrões da morte que atiravam sobre os manifestantes, foram erguidas barricadas por toda a cidade. Em seguida, foram ocupadas prefeituras e edifícios públicos, hotéis e o aeroporto. Para anular a campanha mediática que tentava a todo custo criminalizar o movimento, o povo ocupou estações de rádio e o canal 9 de televisão. Brigadas de moradores asseguraram a ordem, impedindo roubos. Como informava um activista: “Isto não é uma rebelião de poucos grupos ou de algumas alas ‘radicais’. É uma insurreição popular”.


LUTA DE RUAS

Em 22 de Setembro, perante o prosseguimento da repressão, meio milhão de pessoas manifestam--se nas ruas de Oaxaca. Em seguida, cerca de cinco mil activistas organizam uma marcha para a Cidade do México, onde chegam a 9 de Outubro, depois de caminhar mais de quinhentos quilómetros. Acampam na praça central e iniciam uma greve de fome indefinida. Entretanto, indígenas e sindicalistas bloqueiam estradas ao longo de várias horas, enfrentando-se com a polícia; novas Assembleias Populares surgem nos estados vizinhos de Guerrero e Morelia.
Por fim, o governo fez avançar importantes forças militares, com blindados e helicópteros, para desalojar os insurrectos de Oaxaca. Na jornada sangrenta de 27 de Outubro, a cidade transformou-se num campo de batalha desigual quando a polícia e o exército arrasaram as centenas de barricadas e expulsaram dos edifícios públicos e estações de rádio e televisão a população, armada apenas com pedras. Houve uma dezena de mortos e mais de 30 feridos a tiro.
O movimento está por agora dominado. O congresso constitutivo da APPO, previsto para 8-10 de Novembro, foi adiado. Mas a irrupção de poder popular em Oaxaca é um acontecimento histórico que não pode ser apagado. As populações indígenas e as comunidades rurais representadas pela APPO querem gerir os seus próprios recursos naturais e dispor dos seus próprios órgão de governo. São reivindicações semelhantes às expressas em Chiapas dez anos atrás e que reflectem o vigoroso ascenso do movimento de massas por toda a América Latina.

Oaxaca assemelha-se em vários aspectos ao vizinho estado de Chiapas, militarizado desde a insurreição zapatista. Um território altamente estratégico e rico em recursos naturais, uma forte presença indígena (1,6 milhões de pessoas, metade da população do estado) e um nível de pobreza dos mais elevados do país. A maioria dos municípios não possuem serviços de base (água, saneamento, electricidade) e as actividades principais que mais ocupam ainda são a agricultura e a exploração das riquezas naturais: petróleo, urânio, carvão, ferro, ouro, prata. A exploração desses recursos está programada desde 2001, como parte do Plano Puebla Panamá, plano “de desenvolvimento” lançado pelas multinacionais dos EUA.

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