Fórum Social Português

Cadáver adiado

António Barata


Totalmente despercebido e sem qualquer brilho decorreu em Almada, entre os dias 13 e 15 de Outubro, o II Fórum Social Português, confirmando uma morte que se previa desde a sua primeira edição. E isto porque o Fórum sempre foi uma ficção, construída a partir de cima pelos partidos da esquerda ordeira portuguesa – BE, PCP e alguns sectores do PS – que oportunisticamente procuraram capitalizar a seu favor a simpatia existente há cerca de 5 anos relativamente aos encontros e manifestações antiglobalização e ao Fórum Social de Porto Alegre.
Bastava ir às reuniões preparatórias para rapidamente se perceber que o que ali estava em jogo era uma mera e muito pouco inteligente manobra destes sectores para controlarem e capitalizarem o prestígio internacional destes movimentos. Eram tremendas discussões sobre as personagens que deveriam compor as mesas, conduzir os debates e fazer as intervenções de fundo, com o BE, Renovadores e PS’s a tentar impor as suas agendas políticas e os seus “cromos” ao PCP e vice-versa, o mesmo se passando relativamente aos locais onde se deviam realizar as actividades do Fórum – se em zonas de influência do PCP ou dos outros. Discussão política, nem vê-la. No meio de tudo isto, o CIDAC, a AJP e mais uma ou outra associação não alinhada partidariamente tentavam remar contra a maré e assegurar o funcionamento das coisas correntes, mas completamente cilindradas nos momentos decisivos.

O definhamento do Fórum é, aliás, geral. Inicialmente protagonizado por um leque informal de organizações, associações e movimentos radicais alheios à política institucionalizada, estes foram progressivamente marginalizados e expulsos, principalmente com a campanha de que todos estarão lembrados contra os “violentos” após as manifestações de Génova – campanha em que a Internacional Socialista, a ATTAC e o Monde Diplomatique tiveram papel preponderante. Houve uma orientação deliberada para “limpar” o movimento de tentações subversivas e de acção directa, de o limitar ao protesto pacífico e à contestação do “mau” capitalismo, de fazer dos Fóruns apenas lugares de discussão e troca de experiências e nada mais. Por isso foram marginalizados e estigmatizados os sectores mais radicais e anticapitalistas que defendiam que o movimento antiglobalização precisava de estabelecer objectivos e campanhas políticas. Estamos a falar do grupo que se move em torno de Noam Chomsky ou de Samir Amin e do Fórum do Terceiro Mundo, que propuseram uma campanha mundial contra as guerras imperialistas conduzidas pelos EUA e pelo encerramento das suas bases, de solidariedade com os povos do Médio Oriente, entre outras medidas. Essas propostas foram escondidas da generalidade dos activistas e o resultado está à vista, com o apagamento, mais acentuado numas regiões do planeta que noutras, deste movimento.

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