Referendo sobre o aborto

Sim? Vamos a ver...

Ana Barradas


Andam as bloguistas a fazer sondagens sobre o sentido de voto no referendo sobre o aborto e as percentagens pelo “sim” são formidáveis, acima dos 70 por cento!
É porque não se aconselham no confessionário e se calhar nem temem a Deus. Mas as outras, as beatas histéricas e as ratas de sacristia a desfilar nas ruas vestidas de branco, com a cruz em riste e cartazes com imagens de fetos mutilados, a assustar os eleitores com o fim do mundo – Deus nos livre delas.
O meu receio justifica-se porque o exército do “sim” prepara-se para cometer o mesmo erro do último referendo, em versão refrescada. No engodo de alargar a sua frente, formaram uma espécie de comissão de honra – sem desprimor – em que pontificam representantes partidários. E desta vez até conseguiram captar deputados do PSD para fazer campanha conjunta. Devem andar contentíssimas, mas dá-se o caso de estes senhores pertencerem ao partido do governo que, com Paulo Portas em ministro, mobilizou meios de guerra para impedir a entrada em águas territoriais portuguesas do Barco do Aborto, o navio da organização holandesa Women on Waves. Que esperar de semelhantes aliados?
Os resultados do último referendo sobre o aborto já mostraram o que vale a velha pecha de procurar apoios à direita, de investir no prestígio que as instituições ainda conservam junto dos cidadãos despolitizados, de suavizar os termos da campanha para não afugentar os indecisos (há 7 anos, Sim à Tolerância foi um exemplo acabado do defensismo mais inapropriado).
Quem não vai em conversas é Fernanda Câncio, que, na sua colaboração ao blogue Glória Fácil (http://gloriafa cil.blogspot.com/), se tem desunhado a bombardear, quase sempre certeiramente, os do “não” e os do “sim, mas...” e também os do “sim, desde que...” E é que há muitos, todos cheios de reticências, ela é que os topa. Vale a pena dar uma vista de olhos.
A despenalização do aborto sem recurso a referendo era a proposta do PCP que, farto de conhecer o Portugal profundo, sabe muito bem que as forças ultraconservadoras trabalham apoiadas no desnorte dos mais atrasados e que toda a hierarquia da Igreja vai exercer contra o sim a sua acção dissuasora, quando não intimidatória. Ainda por cima, com recurso a meios poderosos que chegam mais longe do que quaisquer outros da esfera política, porque atingem a consciência da maioria católica e, dentro desta, dos mais indefesos, dos menos instruídos, essa maioria silenciosa que da última vez escapou à influência dos grandes partidos e seguiu a voz da Igreja. Por uma vez, até dou razão ao PCP. Uma simples votação na Assembleia da República teria resolvido a questão, com uma larguíssima maioria PS-BE-PCP. Assim como estamos, vamos lá a ver se o sim consegue ganhar.

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